Curitiba – Depois de uma exibição relâmpago no Festival de Cinema de Curitiba, o filme ‘‘Viva Volta’’ tem lançamento oficial na cidade, na próxima segunda-feira. Dirigido pela curitibana Heloísa Passos, o documentário de 15 minutos aborda a trajetória do trombonista carioca Raul de Souza. O filme já foi premiado como melhor documentário do 12º Festival de Cine e Vídeo de Vitória e exibido no México, no XXI Festival Internacional de Cine em Guadalajara. Em Curitiba, o lançamento oficial do documentário acontece na próxima segunda-feira, acompanhado do lançamento do livro ‘‘Desdobramentos’’, também de Heloísa e de uma exposição de fotografias.
  A capital paranaense tem uma ligação peculiar com o projeto desde que a idéia nasceu, por volta de 2000. Nessa época, Heloísa ainda filmava o premiado curta ‘‘Do tempo que eu comia pipoca’’. Em uma conversa com o músico Endrigo Bettega, ouviu falar do trombonista Raul de Souza, que tocava eventualmente com a banda do músico, quando visitava Curitiba. O trombonista, muito mais conhecido e consagrado no exterior do que no Brasil, morou na cidade entre 1959 e 1964.
  Veio participar da banda da Aeronáutica, mas acabou ficando e constituindo família. Teve três filhos na capital, que ainda moram na cidade. Por isso as visitas eventuais do músico, que depois da temporada curitibana ainda fez um longo percurso até chegar a Paris, onde mora atualmente com a nova mulher e uma filha de 11 anos.
  Heloísa já tinha ouvido falar do músico, mas começou a se aprofundar em sua biografia depois da conversa com Endrigo. ‘‘Eu comecei a me identificar com essa vida cigana dele, sempre atrás de um lugar para tocar. O cineasta também é assim. Está sempre atrás de uma boa história’’, compara a diretora. E a identificação foi tanta que um ano depois da primeira conversa sobre o músico, Heloísa ligou, com a cara e coragem, para Raul, em Paris. ‘‘Eu estava em férias na Europa e decidi ligar. A esposa dele atendeu e disse que ele não podia falar. Eu insisti uma hora depois e dessa vez quem atendeu foi ele’’, conta.
  Ela explicou que queria fazer um documentário sobre o músico. Raul de Souza, por sua vez, contou o motivo que explicaria a reclusão inicial da atual mulher. Ele casaria no dia seguinte, em Paris. ‘‘Eu acabei indo ao casamento. Era a única brasileira convidada e nós acabamos por dar início a uma relação bem carinhosa. Ficamos íntimos’’, salienta Heloísa. Nessa época, o projeto de um documentário era apenas uma idéia, mas a cineasta já começou a captar imagens para o filme. Dois anos depois, ela ganharia um concurso da Petrobras, no valor de R$ 60 mil, que permitiria tocar o projeto pra valer. E assim o fez.
  O documentário conta parte da trajetória do trombonista, mas também faz um resgate histórico. Promove o encontro dele com a cantora Maria Bethânia. Traz imagens de arquivo do filme francês ‘‘Saravah’’, filmado em 1969, e realiza um reencontro entre a dupla. No filme, Souza e Bethânia fazem um arranjo especial da música ‘‘Bom Dia Tristeza’’, de Vinícius de Moraes. ‘‘Foi um encontro muito emocionante’’, lembra Heloísa.
  O documentário reúne cenas do arquivo pessoal de Heloísa, com gravações do músico no bairro Bangú, no Rio de Janeiro, onde Souza nasceu e foi convidado a voltar para filmar o documentário. O músico começou a tocar trombone aos 16 anos, na banda da Fábrica de Tecidos de Bangu. Em seguida passou a atuar em gafieiras da cidade, e adotou o nome artístico Raulzinho, dado por Ary Barroso e adaptado mais tarde para Raul de Souza. De 1959 a 1963 esteve na Força Aérea Brasileira, onde tocava na banda. Quando saiu, foi tocar com Sergio Mendes, com quem excursionou pelos Estados Unidos e Europa.
  Em 1965 gravou o primeiro disco individual, ‘‘À Vontade Mesmo’’. Em 1974 lançou o disco ‘‘Colors’’ nos Estados Unidos, produzido por Airto Moreira. Foi o primeiro de uma série de sucessos nos EUA, onde morou por vários anos e tocou ao lado de Sonny Rollins, Freddie Hubbard, George Duke, Chick Corea, Jimmy Smith, entre outros. O músico é também conhecido por ter inventado o ‘‘souzabone’’, uma variação do trombone, com quatro válvulas (uma delas cromática). Atualmente, aos 73 anos, ele continua morando em Paris.
  Além do lançamento de ‘‘Viva volta’’, que leva esse nome inspirando em uma das músicas de Raul de Souza, acontece no mesmo evento o lançamento do livro de fotografias ‘‘Desdobramentos’’, o primeiro livro de fotografia da cineasta curitibana. A obra traz 21 imagens realizadas entre 1999 e 2006 em diversas cidades do mundo. Oito fotos do livro estarão expostas durante o evento.


Serviço:

- Lançamento do filme ‘‘Viva Volta’’ e da exposição ‘‘Desdobramentos’’, de autoria de Heloísa Passos. Segunda-feira, às 21 horas, no Unibanco Arteplex do Shopping Crystal Plaza (Rua Comendador Araújo, 731), em Curitiba. Entrada franca.

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