Misturas refinadas
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segunda-feira, 01 de agosto de 2011
Roberto Nascimento <br> Agência Estado 
São Paulo - As produções de Flying Lotus, nome artístico de Steve Ellison, formam um elo entre o free jazz, o hip hop e a música eletrônica. Seus beats são colagens instrumentais densas, que abusam de texturas sintetizadas, mesclando trilhas de videogame, bips e sirenes, com o roncar de um caminhão, uma cascata de harpas, o telecoteco de uma roda de samba. Todo o caos se organiza em torno da pulsação arrastada do hip hop, uma combinação que faz de sua obra uma das mais relevantes e inovadoras da última década.
Ellison vem ao Brasil em agosto, para shows nos Sesc Araraquara e Belenzinho (dias 18 e 19). Já foi chamado de Hendrix de sua geração e transcendeu o status cult no ano passado, ao colaborar com Thom Yorke, do Radiohead, no disco Cosmograma. Emaranhado e caótico, o álbum figurou em diversas listas de melhores de 2010. Durante o processo criativo, Ellison superou a perda de sua mãe, que morrera há pouco tempo. ''A produção me ocupou. Foi como terapia'', conta, em entrevista à reportagem. ''Acho que por isso é um disco meio doido, denso. Às vezes fica saturado. Mas é um retrato da minha mente na época, uma reflexão muito honesta'', completa.
O trabalho com Yorke gerou a faixa ''And the World Laughs With You'', mas foi além: o conceito rítmico picotado do disco é uma das influências mais notáveis no disco King of Limbs, que Yorke e sua trupe de roqueiros vanguardistas lançaram este ano. ''Ele me disse que ficou muito inspirado com algumas coisas que eu fiz'', conta Ellison.
A sonoridade de Flying Lotus começou a ser formada em casa. Sobrinho-neto de Alice e John Coltrane, Ellison cresceu frequentando o ashram em que sua tia-avó era responsável pela música de meditação. Não conheceu o saxofonista por ter nascido mais de uma década depois de sua morte, mas seu primo Ravi, filho de John e influente sopro no free jazz, foi seu mentor. ''Eu tinha 15 anos. Na época, o Ravi fazia música influenciada pelo Prince, com uma bateria eletrônica e aquela base rock and roll. Ele me deu uma bateria eletrônica de presente e comecei a fazer meus primeiros beats. Mas isso só vingou na faculdade de cinema, quando comecei a cabular aula para ficar em casa e compor'', conta.
Se há alguma semelhança entre as improvisações abrangentes de sua tia e sua música, ela está na ressonância espiritual, surpreendentemente meditativa (pois não há nada de calmo em sua música) em suas composições. ''Ela me ensinou que não é preciso seguir os outros para fazer música boa. Você pode compor algo muito honesto e espiritual, contar uma boa história, ir a lugares que outras pessoas têm medo de ir, sem ser um fantoche''.


