Curitiba Não precisa nem sair de casa ou buscar a informação em livros antigos. É só ligar a televisão de madrugada e você vai ver diversos programas religiosos mostrando pessoas com o ''demônio'' no corpo e pastores dedicados a afastar Satanás. A versão moderna do exorcismo pode não esclarecer muita coisa e até confundir ainda mais sobre o tema. Mas quem gosta do assunto e de polêmica tem na programação do cinema uma boa atração. Estreou na última sexta-feira, o longa-metragem ''O Exorcismo de Emily Rose''
Inspirado em uma história real, o filme conta o drama vivido por uma jovem de 19 anos possuída pelo demônio em um dos raros casos do gênero reconhecido oficialmente pela Igreja. No filme, a protagonista Laura Linney interpreta uma advogada que defende um padre (Tom Wilkinson) acusado pela morte da jovem Emily Rose após uma sessão de exorcismo. O roteiro se baseia na história de Anneliese Michel, uma garota germânica que nos anos 70 foi exorcizada e morreu durante o processo. Na época, o padre também foi levado a julgamento.
Mais do que um filme de terror, ''O Exorcismo de Emily Rose'' é um drama judicial. O diretor Scott Derrickson (''Lenda Urbana 2'') utiliza o tema para oferecer ao espectador a dúvida da existência ou não de poderes satânicos e divinos. Durante o julgamento do padre, todas as possibilidades da doença ou possessão de Emily são discutidas e cabe ao espectador escolher pela ciência ou pelo mistério.
Para o médico psiquiatra Dagoberto Hungria Requião, diretor geral do Hospital Nossa Senhora da Luz, em Curitiba, isso acontece também na vida real. ''O tema é complexo e cabe a cada um aceitar sua existência'', diz. Para o psiquiatra não é apenas uma decisão baseada na crença, mas na postura de vida de cada um. ''O problema é que a avaliação dos sintomas de um paciente é subjetiva, não é matemática. Alguns pacientes podem apresentar patologias psiquiátricas que se confundem com possessão. O fato é que muitos médicos tem exemplos clínicos que não podem ser explicados pela ciência'', diz.
O próprio médico conta a experiência de uma paciente que atendeu há alguns anos e que apresentava sintomas que não conseguiam ser enquadrados em nenhum diagnóstico preciso. Ela foi medicada, mas os sintomas só desapareceram depois de uma intervenção religiosa. ''Não há justificativa para o desaparecimento tão rápido dos sintomas. Os medicamentos não poderiam agir com essa rapidez'', lembra o médico. O caso fez com que ele mudasse a própria postura para alguns diagnósticos. Se ele acredita que as pessoas possam ser possuída por espíritos malignos? Ele responde: ''Eu concebo a existência de alteração comportamentais que escapam da compreeensão da psicopatologia''.
Mas independente da opinião médica e diferente do que algumas religiões mostram e sensasionalizam em progrmas de TV, o exorcismo é uma prática milenar, admitida pela Igreja Católica. Para os católicos, o exorcismo é um ritual religioso para expulsar Satanás ou maus espíritos de uma pessoa, lugar ou objeto possuído. Os sacerdotes que utilizam a prática seguem um ritual complexo, que envolve o uso de água-benta, encantamentos, preces, incensos, relíquias ou símbolos cristãos como a cruz, a fim de expulsar os espíritos malignos.
O padre Jonacir Francisco Alessi, também de Curitiba, explica que não são todos os padres que podem realizar o exorcismo e que a realização do ritual também não é tão comum assim. ''O demônio não se apossa de uma pessoa com facilidade', afirma. Além disso, o padre também esclarece que muitas vezes distúrbios emocionais são confundidos com possessões espirituais. Em sua experiência na igreja católica, o padre já foi chamado duas vezes para atender casos de possíveis possessões.
Em uma delas, a mais impressionante segundo ele, os pais de uma garota o chamaram em casa por acreditarem que a menina estava possuída pelo demônio. ''Ela falava com voz de homem e tinha uma força descomunal. Mas não era um caso de exorcismo. O problema dela era psicológico e descobrimos isso depois'', revela. Na opinião do padre, principalmente nos dias atuais, as pessoas se enganam quanto a essas possessões e são bastante sucessítiveis ao sensacionalismo. Sobre a necessidade ou não do exorcismo, o padre argumenta que cada caso é um caso, mas uma coisa ele diz garantir: ''o demônio existe e tem sabedoria angelical. Para se proteger dele é preciso ter uma vida de orações e não ceder às tentações''.
Na visão da igreja evangélica, são justamente essas tentações que levam à possessão do demônio em uma pessoa. Os evangélicos vêem a prática do exorcismo com outras denominações, intituladas libertação ou expulsão de demônios, e se baseiam no exemplos da Bíblia para admitir a possessão. O pastor Marcos de Souza Borges, da organização missionária Jovens com uma Missão, explica o ritual praticado pela religião que segue: ''Não é uma mágica. É um processo da pessoa quebrar os hábitos ruins e aceitar Jesus'', diz.
O pastor revela que, assim como no ritual do exorcismo, a libertação ou expulsão do demônio precisa ser consentida pela pessoa. ''Se a pessoa tem vontade de se livrar dos demônios, vai ter êxito'', conclui o pastor que diz que todos os dias atende casos com pessoas ''possuídas''.
No filme ''O Exorcismo de Emily Rose'', a jovem em questão admitiu o exorcismo, mas mesmo assim o ritual não foi bem-sucedido. Segundo a versão do filme, os remédios que ela tomava para psicose, diagnosticado por uma junta médica, impediram o sucesso do ritual. O julgamento fica por conta do espectador, já que o diretor opta por expôr várias versões da história.
Essa não é a primeira vez que o tema é abordado no cinema. No clássico de terror ''O Exorcista'', o diretor William Friedkin (''Regras do Jogo'') conta a história de uma garota possuída por um espírito demoníaco, que é confrontada por um padre exorcista. Com Linda Blair e Max von Sydow no elenco, o filme foi o primeiro e único filme de terror a ser indicado ao Oscar de melhor filme.
O longa foi relançado em 2000, com uma nova cópia, som digital e 11 minutos de cenas extras inseridas ao longo do filme. Depois de ''O exorcista'', outros três filmes da mesma série também abordaram a temática: ''O Exorcista II - O Herege''; ''O Exorcista III'' e ''O Exorcista - O Início''(2004), provando que matéria-prima para discutir o assunto, não falta.

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