Se James Bond conseguir terminar o século 21, com certeza vai ser muito parecido com Ethan Hunt, o herói vivido por Tom Cruise em ‘‘Missão Impossível 2’’, o peso pesado da indústria do entretenimento que estréia hoje em 270 salas brasileiras (veja a programação de cinema na página 5). Hunt é uma variação up to date do 007 criado por Ian Fleming. E o que isto significa? Que sexo é muito mais uma surpresa e uma distração do que um estilo de vida. Que os extras e os efeitos especiais não aparecem para interromper a ação: eles são a ação. Que o interesse do herói em novos itens consumistas fica bem mais por conta de engenhocas ‘‘cyber’’ do que por carros esportivos. Que ele não é um patriota a serviço de sua majestade, mas um pistoleiro de aluguel trabalhando para uma não-classificada agência internacional. E que ele, afinal, não fuma, bebe raramente e está nas mesmas ou em melhores condições físicas de qualquer triatleta rumo a Sidney. Ou alguém ainda acredita que a Austrália foi escolhida como locação apenas pelo espetacular apelo cinematográfico do ‘‘outback’’, o mesmo que já emoldurou as façanhas de Mad Max, outro herói seria?
Lançado há quase cinco anos, o primeiro ‘‘Missão Impossível’’, de Brian De Palma, fez muito dinheiro castigando o espectador com um argumento que ninguém entendeu direito, embora todos afirmassem o contrário. Não que a história de ‘‘M:I-2’’ seja cristalina e um convite ao amplo entendimento. A diferença é que agora o roteiro básico e simples do mesmo Robert Towne – quem diria, o homem que um dia escreveu o ‘‘Chinatown’’ de Polanski, um dos maiores clássicos dos anos 70 –, embora se valendo aqui e ali de material alheio, como elementos hitchcockianos plantados em ‘‘Interludio’’(Notorius, 46), é levado a reboque pela direção de John Woo.
‘‘Missão Impossível 2’’ abre com um cientista se auto-injetando uma misteriosa substância e enviando mensagem ao agente Hunt (Cruise). E a mensagem – o público logo vai descobrir sem sofrimento – acaba sendo a chave do enigma: ‘‘A busca por um herói começa com algo que todo herói precisa: um vilão’’. E falando em vilões, o de ‘‘M:I-2’’ chama-se Sean Abrose(Dougray Scott), e é um ex-agente que vai infernizar a vida de Hunt. Entre eles circula a super ladra Nyah Hall (Thandie Newton), recrutada por Hunt por insistência de seu patrão (Anthony Hopkins, desenergizado). De volta ao time está o mestre da informática, Luther Stickell (Ving Rhames). O objetivo: recuperar uma poderosa arma biológica roubada.
Se a primeira ‘‘Missão’’ era tão somente entretenimento enquanto som, fúria e movimento, esta estréia de hoje é mais envolvente, mais elástica enquanto ação. É até mais eficiente do que as estripulias de James Bond, embora menos recreativa. Mas a esta altura quase ninguém mais duvida de que, no cinema de entretenimento, o futuro à ação pertence. Mais eficiência, menos diversão. Em resumo: um filme com a marca registrada do chinês John Woo, em que se encontra muita coisa já vista em seus filmes anteriores (a fase doméstica, em Hong Kong, e a fase cosmopolita e globalizada dos grandes orçamentos da ‘‘mainstream’’) mas de tal forma por ele reciclada que o impacto parece novo em folha. Atualmente é um dos dínamos que Hollywood mantém de plantão, ao lado do alemão Roland Emmerich e do holandês Jan De Bont. Como se nota, e para não perder o hábito e a qualidade, o cinemão americano faz suas habituais transfusões com o melhor sangue importado.
E para Tom Cruise, a série ‘‘Missão Impossível’’ é uma espécie de franchise, o mesmo que ‘‘Máquina Mortífera’’ representa para Mel Gibson – a terceira sequela já está em fase de story board, e traz John Wood de novo na direção. Para o ator e aqui também produtor é um situação confortável, para dizer o mínimo. A folga bancária – para um investimento de US$ 125 milhões já existe um retorno de US$ 178 milhões em quatro semanas de exibição no mercado dos EUA – dá a ele liberdade mais que suficiente para ousadias off Hollywood. Aventuras mais inteligentes e consistentes, como ‘‘De Olhos Bem Fechados’’ e ‘‘Magnólia’’.

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