MISSÃO MUSICAL - Rap para rezar
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sábado, 02 de julho de 2005
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Questionada sobre o motivo que a levou a ingressar aos 19 anos no convento, a jovem irmã Inez de Souza Carvalho, hoje com 34 anos, revela: ''Eu não era frustrada, não. Até pretendente eu tinha'', conta, bem-humorada. Mas, segundo ela, o ''chamado de Deus'' foi mais forte. O humor para lidar com as situações e a sua própria juventude, no entanto, fizeram com que a freirinha procurasse um caminho diferente para evangelizar: a música. E é por meio dela que Irmã Inês, ou a ''freira do rap'', como é mais conhecida está conseguindo tirar meninos e meninas em situações de riscos das ruas.
Para ela, o gênero conhecido pelas letras conflitantes e repletas de palavrões não importa, as mensagens são mais importantes. ''Por mais que o ritmo seja pesado, as letras que eu faço têm outro fundamento e são uma forma de rezar'', considera. Mas o rap é apenas algumas das baladas que a freira já embarcou. Atualmente Irmã Inez está se dedicando ao lançamento de seu terceiro CD, intitulado ''Tesouro Escondido''. Desde que lançou o primeiro disco, no final da década de 90, ela já criou músicas nos mais variados ritmos, do rock, ao country. Do funk ao jazz. No novo disco, não é diferente. O trabalho reúne músicas de diferentes estilos.
São gêneros que a irmã conhece a partir da convivência com adolescentes e jovens em situações de risco. Foi assim, aliás, que ela entendeu que a música era um caminho para chegar até essas pessoas. ''Eu ainda estava em Ponta Grossa quando saí para ir a uma missa à noite. Eu saia muito pouco nesse horário e para mim foi uma surpresa quando encontrei uma garota na rua'', lembra. Nessa mesma noite ela acompanhou a menina até os locais em que os adolescentes dormiam, abrigados em caixas de papelão. ''Eu conheci uma realidade muito dura e coloquei isso na música'', diz.
As letras que a Irmã Inez passou a compor mostravam essa realidade, mas também abordavam a ''palavra de Deus'' como um caminho para salvação. As músicas foram inscritas em festivais e ganharam vários prêmios por todo o Brasil. A freira também começou a realizar shows e decidiu gravar o primeiro disco, ''O Brilho da Misericórdia'' - com a música Rap da Copiosa, que a lançou para o mundo do estrelato e da mídia (ela já se apresentou em programas como o da Xuxa, Jô Soares e Gugu). O segundo disco ''Reflexo de Deus'' foi lançado dois anos depois.
''Todo esse sucesso mudou bastante a minha vida. Antes eu ficava no convento. Hoje estou nas ruas, mais perto das pessoas'', conta. O trabalho também motivou a freira a criar a sua própria comunidade, a ''Comunidade Milagre Eucarístico''. Fundada há três anos, a instituição tem sede em Paranaguá e abriga cerca de 20 pessoas que trabalham com Irmã Inez. Alguns são músicos e dançarinos que a acompanham durantes as turnês. Outros são pessoas que deixaram suas famílias para acompanhar a religiosa no trabalho de evangelização.
Natural da pequena cidade de Rosário do Ivaí (145 km ao sul de Apucarana), Irmã Inês demorou alguns anos para convencer a família que a sua vocação estava no convento. Única filha de uma família de cinco irmãos, ela contou ao pai que queria ser freira aos 14 anos. ''A reação foi a pior possível. Mas eu pedi à Deus para me iluminar. Fiquei anos rezando. Até que aos 18 anos, decidi. O chamado foi mais forte e meu pai acabou aceitando. Hoje ele me entende e gosta muito do que eu faço'', conta.
Desde que uniu a religião ao mundo pop, a freira já fez shows em todo o Brasil. Em alguns deles, o público ultrapassou 10 mil pessoas. Nesse tempo começou até a aprender outros intrumentos (ela toca violão e agora está estudando teclado), mas geralmente é acompanhada por músicos ou os contrata em cada cidade do show. Cada apresentação tem cerca de 20 pessoas envolvidas, entre cantores, músicos e bailarinos. Pois quase todas as músicas tem as suas coreografias específicas.
E a peregrinação (e animação), conforme avalia a freira tem dado resultado. ''Eu já testemunhei vários casos em que a nossa abordagem e a nossa música contribuíram para tirar adolescentes das ruas e das drogas'', conta. Por isso, ela não pretende parar tão cedo. ''O trabalho com a música, não me impede de rezar, pelo contrário, só tem me ajudado'', conclui.
Ela já está com shows agendados por boa parte do interior do Paraná e Santa Catarina. ''Mas ainda não tenho nada programado para Londrina. Gostaria muito de ir'', avisa. Os shows promovem o lançamento do novo disco. A edição do CD é independente e está sendo distribuído nas livrarias católicas. O disco pode ser adquirido também diretamente com a Comunidade Milagre Eucarístico pelo telefone (41) 3422-8747 ou e-mail contato@ milagre eucaristico.com.br


