'Missão Impossível': um filme radical, mas não irracional
Mais do apresentar teses mirabolantes, filme tem como missão mostrar o difícil equilíbrio entre os poderes no mundo contemporâneo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de julho de 2023
Mais do apresentar teses mirabolantes, filme tem como missão mostrar o difícil equilíbrio entre os poderes no mundo contemporâneo
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

Sendo James Bond uma das principais referências que o criador, roteirista, produtor e diretor Bruce Geller usou para criar a série televisiva “Mission: Impossible” (Rede CBS,1966-1973), é lógico que a franquia-estrela da Paramount, controlada do início ao fim por Tom Cruise desde sua primeira entrega, terminou se tornando, filme após filme, missão após missão, o melhor Bond das últimas três décadas. E não porque Ethan Hunt seja uma mera transcrição do celebrado agente 007, mas porque o produtor Cruise conseguiu ver e extrair do personagem criado por Ian Fleming sua substância mais cobiçada. A saber: que os maníacos de plantão e seus planos mirabolantes de dominar o mundo nada mais são do que um pretexto para falar do difícil e complexo equilíbrio de poderes entre uma grande potência decadente (os EUA no caso de “Missão Impossível”, a Inglaterra pós-colonial nos domínios de Bond) e os aspirantes a sucedê-lo no trono. Ou explodir todos os tronos, como profetizou com genialidade o Coringa/Heath Ledger na trilogia de Batman dirigida por Christopher Nolan.

Nesta crônica de uma morte anunciada, a do fim da política de quarteirão (assunto que, lembrem-se, já estava no ótimo filme inicial da franquia MI, de Brian de Palma, 1996), “Missão Impossível: Acerto de Contas, Parte 1” se apresenta como primeiro capítulo de um ambicioso díptico que constrói com precisão várias pontes com o filme de De Palma. E faz isso com a confirmação de uma ideia genial que, penso eu, deve-se ao diretor Brad Bird no igualmente exemplar “Protocolo Fantasma/Mission Impossible” (Ghost Protocol”, 2011), o quarto exemplar da série. Isto nada mais é do que acompanhar cada elogio que os roteiros merecem em termos de geoestratégia, política e ameaças apocalípticas (guerra nuclear, terrorismo internacional, fim dos serviços secretos de espionagem, hacking global de computadores, etc.), com um tratamento análogo da imagem, independente de tendências, mas ligada à contemporaneidade de cada momento.
Assim como no já mencionado Ghost Protocol, Bird e seu diretor de fotografia, Robert Elswitt (o braço direito de Paul Thomas Anderson), se esforçaram para envolver a ação em uma estética espectral. De acordo com a identidade de Hunt e com a natureza da ameaça nuclear que sinalizava a trama, neste “Acerto de Contas, Parte 1” o diretor Christopher McQuarrie e o fotografo Fraser Taggart desenharam um aparato visual que expressa a ubiquidade da Entidade (uma especie de Inteligência Artificial revoltada e pessimamente humorada que se propôs a desencadear uma terceira guerra mundial
Como? Tudo começa no prólogo, quando um Hunt fantasmagórico ensina a um jovem recruta da Força Missão Impossível o que, exatamente, é ser um fantasma. Eles não são vistos, mas são sentidos. Eles não falam, mas sussurram. Eles não andam, mas estão por toda parte. Eles não vivem, mas matam.
Com um uso eloquente do claro-escuro, o filme se vale dessa abordagem visual, sequência após sequência (mesmo no trecho aparentemente mais luminoso que se passa no aeroporto de Abu Dhabi), para articular um discurso mais próximo da natureza do vilão, a tal Entidade. Dificilmente haverá momentos em que “Acerto de Contas, Parte 1”, não nos dá pistas (olhares) sobre as possibilidades expressivas da imagem quando ela é tecida segundo a trama das intenções do roteiro literário. Aquilo que bons autores comerciais costumam fazer antes do retorno ao silêncio, para nos livrar da ditadura dos estúdios que sofremos desde o surgimento da Marvel-Disney. Aqui se pode invocar Cesar e dar a Cruise o que é de Cruise, uma marca, um selo; penso que sim, que é precisamente isto: a vontade decidida de não renunciar à imagem (a começar pela própria, a dele) como primeiro emissário da ação. O tema deve merecer muito outras avaaliações, com certeza, porque o filme é ótimo, e por muitas razões.
* Missão Impossível está em cartaz em várias salas de Londrina, confira a programação de cinema no site da FOLHA.


