“Missão Impossível 8” : o epílogo da série se leva muito a sério
Apesar das fanfarras e tapetes vermelhos mundo afora, não há nada aqui que se compare à sequência muito divertida da Parte Um
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quinta-feira, 22 de maio de 2025
Apesar das fanfarras e tapetes vermelhos mundo afora, não há nada aqui que se compare à sequência muito divertida da Parte Um
Carlos Eduardo Lourenço Jorge - Especial para a Folha 2 

Os bizarros e equivocados 45 minutos iniciais de “Missão Impossível – Acerto de Contas Final, Parte dois” ou algo que o valha , neste momento em estreia com fanfarras e tapetes vermelhos em todo o mundo (a partir de Cannes), incluem um resumo implacável do episódio anterior e uma longa despedida dos filmes que o precederam.
Vemos flashbacks de Jon Voight, Michelle Monaghan e meia dúzia de outros ex-membros do elenco. Vemos a versão de Tom Cruise que, ao contrário da encarnação atual, não parece estar usando uma peruca dos Beatles.
Tudo isso é bastante suportável. Menos agradável é a reiteração exaustiva do dilema que Ethan Hunt, de Cruise e equipe de M:I agora enfrentam. Angela Bassett retorna como Presidente Sloane para lhe dizer – como ele não percebeu? – que uma entidade digital maligna conhecida como, hum, "A Entidade", infectou os computadores do mundo e está planejando lançar um caos nuclear.
Meia dúzia de sinônimos para apocalipse são usados, incluindo (pobre Angela...) "o fim do mundo como o conhecemos". Aparentemente, o código-fonte da Entidade está em um submarino afundado e...
Seria exagero sugerir que uma abertura imperdoavelmente lenta mata o filme. Mas, quando finalmente Hunt é colocado em um traje de mergulho e o afundamos na escuridão do Pacífico Norte, muitos espectadores já podem ter desistido. E essa sequência estendida é mais uma conquista técnica do que um acelerador de pulso.
Há uns bons 60 anos, em “Thunderball”, a equipe de Bond demonstrou acidentalmente como é difícil manter o interesse por sequências de ação subaquáticas. Muito escuro. Pouco acesso ao rosto do personagem.
Leva muito, muito tempo para este M:I se redimir com as acrobacias do biplano que você viu no trailer, nas fotos, no pôster. Tudo isso é uma surpresa desanimadora depois do apenas correto mas bem superior “Missão Impossível – Acerto de Contas, Parte 1”. O filme era ágil e irreverente, e bem mais leve na exposição desnecessária.
Como observei na época (dois anos atrás), pelo menos uma acrobacia agradavelmente absurda sugeria que a série estava se aproximando de um daqueles divertidos James Bond da era Roger Moore. Cruise está agora alguns anos mais velho do que o inglês quando este abandonou 007 em “Na Mira dos Assassinos” – mas em vez de abraçar o estilo de Moore, este filme-epílogo se leva a sério demais.
Não há nada aqui que se compare à sequência muito divertida da Parte Um, em que Cruise, algemado a Hayley Atwell, pilota um Fiat 500 amarelo pelas ruas de uma Roma lotada. É, estamos muito ocupados com o fim do mundo como o conhecemos.
Anotadas essas objeções, ainda há outras; o filme é muito confuso, muito desajeitado, parece (e é) longo demais e inerte, mesmo sem desacelerar. O objetivo parecia ser uma despedida nostálgica, mas a execução é desorientada, esquecendo que ninguém jamais assistiu a esses filmes pelo argumento, mas sim pelo espetáculo que os dublês amadores proporcionaram em massa.
E, por último, é triste reconhecer que boa parte daquele suave caos (leia-se charme) que Brian De Palma idealizou para o primeiro filme da série, em 1996, não sobreviveu até este quarto de século XXI.


