Missão Impossível
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de março de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
Arquivo FolhaCena de Missão ImpossívelNesta muito aguardada adaptação cinematográfica da clássica série de tevê dos anos 60 e 70, Brian DePalma bem que tentou reciclar a antiquada fórmula de espionagem. Conseguiu, em parte. Embora Missão Impossível esteja longe de ser um sucesso nos termos bem conhecidos do diretor, que não subverte o gênero mas empresta a ele uma sofisticação clean, o trabalho não insulta a inteligência e pode ser considerado digno.
Tom Cruise, uma espécie de dono do brinquedo, interpreta Ethan Hunt, membro da elite do IMF - Impossible Mission Force, liderada pelo veterano Jim Phelps (Jon Voight). Durante uma dessas missões impossíveis em Praga, quase todo o grupo é eliminado quando tentava por as mãos numa lista com nomes de espiões americanos. Acusado dos crimes, Hunt desaparece para tentar resolver dúvidas em sua cabeça. Os roteiristas David Koepp e Robert Towne, temerariamente, reduziram muito daquilo que fez o enorme sucesso e a popularidade da série (gadgets, supervilões internacionais) para um mínimo apenas tolerável. O resultado é uma trama de espionagem bem comportadinha, à moda antiga, com suficiente inibição para manter o nível de interesse na ação.
Direção Os prazeres de Missão Impossível são na maioria convencionais. Segundo consta, o ator-produtor Tom Cruise teria mantido DePalma em camisa de força. Mas sem dúvida há momentos em que o diretor de Os Intocáveis se inspira, libera algumas obsessões e então faz brilhar sua lírica sensibilidade, impregnando o filme com a marca registrada reconhecível. É quando se observa a violência tratada como uma ópera, ou se redescobre sua paixão por Hitchcock, sua predileção por personagens isolados e solitários, sua curiosidade pela justiça. Sem falar de uma certa esquizofrenia galopante que acaba sempre possuindo seus personagens.
Desnecessariamente, Missão Impossível volta e meia se perde nos meandros de uma intriga difícil de destrinchar: falsas pistas, caminhos de precipícios, referências que se cruzam. Como se filmar em Praga trouxesse a obrigação de contar uma história kafkiana.


