Missão era recriar o mundo
Com a missão de refazer o mundo e apresentá-lo a Deus no dia de sua passagem, Arthur Bispo do Rosario, sergipano, nascido em 1909, interno do hospital psiquiátrico da Colônia Juliano Moreira entre 1939 e 1989, quando veio a falecer, com 79 anos de idade, não dormia mais do que quatro horas por dia, trabalhando incessantemente em sua cela dentro do manicômio, onde foi diagnosticado como esquizofrênico-paranóico.
Transformava em arte tudo quanto lhe viesse às mãos: mantos e panos bordados com linha retirada de seu próprio uniforme e lençóis, materiais como congas, chinelos, tênis, bolsas, colheres, tampinhas e toda sorte de bugigangas trocadas por cigarros com os outros internos, que transformava em estandartes, vitrines e assemblages. Este, aliás, um dos motivos porque não gostava de mostrar o que fazia, pois podia ser saqueado pelos companheiros ou ter seus pertences tomados pelos enfermeiros.
A abertura política dos anos 80, possibilitou também o acesso aos porões da ditadura e o mundo reinventado por Bispo surgiu, deixando todos atônitos. Livres dos cupins e do anonimato mas ainda não da poeira, do calor e da umidade artistas e críticos criaram uma associação (depois desfeita) para salvarem sua obra, que já foi vista na Bienal de Veneza e também na Mostra do Redescobrimento, no ano passado, entre outras exposições importantes.
O ex-boxeur da marinha, o xerife que ajudava os enfermeiros a cuidar dos pacientes mais agressivos é dono de uma obra que é, ao mesmo tempo, portadora de uma experiência da vanguarda artística e que nos mostra o estado opressor da prisão manicomial e de seu tratamento psiquiátrico feito à base de remédios violentos e choques elétricos. Na escada de acesso ao Museu Bispo do Rosario, na Colônia, em Jacarepaguá, como uma sentença e resumo de sua obra, pode-se ler uma de suas frases, que diz: Os doentes mentais são como os beija-flores. Nunca pousam. Estão sempre a dois metros do chão.





