Missão cumprida a ferro e fogo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2003
Roberta Brasil<br> TV Press 
A indicação de Reynaldo Gianecchini para protagonista de ''Esperança'' foi recebida com descrédito. Havia dúvidas se o ator com duas novelas e tipos parecidos com ele próprio no currículo já estaria pronto para interpretar um imigrante italiano da década de 1930. Mas Reynaldo não se abateu e acreditou que poderia ir além da estampa de ''bello ragazzo''. ''Esperança'' se despediu com amargos 38 pontos de média no ibope, mas Reynaldo, ao contrário, saboreia o reconhecimento de sua atuação como o passional Toni. ''Ganhei um personagem rico, fui bem-dirigido e contracenei com um elenco de primeira'', retribui o ator, fazendo alusão ao diretor, Luiz Fernando Carvalho, e a colegas como Raul Cortez, Ana Paula Arósio e Priscila Fantin.
Em oito meses, ator e personagem viveram fases distintas. Toni começou a história cheio de sonhos e com o frescor típico da juventude. De romântico e apaixonado passou a temeroso e vacilante para, mais à frente, assumir seus sentimentos. Ganhou maturidade e uma dose de amargura. Também trocou as aspirações de riqueza pelos ideais socialistas e abraçou o sindicalismo. ''Consegui encontrar a alma do Toni. Não acho que tenham mudado sua essência. Ele é que passou por experiências difíceis e foi se transformando'', argumenta.
O perfil do Toni foi dinâmico, passou do ímpeto de esperança e romance e ganhou uma faceta política. Como foram essas passagens?
Estava conversando outro dia com o (diretor) Luiz Fernando Carvalho e a gente fez essa trajetória do personagem. Que maravilha... Quantas fases o Toni teve e quantas fases eu tive também para desenvolver cada passo dele. Como aprendi com cada nova transformação... Tinha sempre de buscar algo dentro de mim para oferecer. Foi um trabalho muito difícil. Quando achava que tinha feito a cena mais difícil, vinha outra pior.
E qual foi o período mais cansativo para você?
Foi quando quebrei os dentes e, em seguida, peguei uma infecção. Mas tive de continuar trabalhando! Não podia parar de gravar... Além disso, certas passagens foram exaustivas. Por exemplo, no início, era difícil de fazer o personagem ingênuo porque eu já não sou tão menino. Depois, ele se transformou num cara mais pesado, sério, engajado... Durante muito tempo eu dormi só três horas por noite. Algumas cenas isoladas também foram difíceis. O reencontro com o pai, com Maria... exigiam bem mais do que aquele simples olhar brilhante. Tinha de ter um mundo interno explodindo.
E um ''mundo interno'' para ser criado, muitas vezes, recebendo o capítulo de véspera...
Exatamente. Aí é que está a beleza do trabalho de um diretor como o Luiz Fernando. Dentro desse caos, ele consegue uma ligação da equipe que é fora do normal. Eu acho inexplicável. Está todo mundo tão imbuído com a energia de criação dele que, automaticamente, a gente faz a cena com um elemento a mais. É óbvio que é difícil chegar no ''set'' e já estar intenso, pronto para gravar. Mas é aí que está a experiência fantástica de fazer esta novela. Acho que nunca vou ter de novo essa sensação de atuar quase ao vivo na televisão. De me jogar na cena sem muito preparo e ''Seja o que Deus quiser!''.
A mudança de autor numa novela dificulta muito o trabalho de um ator?
A gente sente a diferença. No primeiro capítulo escrito pelo Walcyr Carrasco estava claro que era outra pessoa escrevendo. São linguagens diferentes! Agora, eu falo do fundo do coração: tenho um respeito profundo pelos dois. Pelo Benedito, por tudo que ele fez e, também, por ''Esperança''. Já o Walcyr foi corajoso de pegar essa novela no meio. O Toni ganhou um novo rumo, mas não virou outro personagem, como chegaram a dizer. Eu respeito a solução que o Walcyr Carrasco deu.
E, numa auto-avaliação, o que você ganhou nesse período, do início ao final de ''Esperança''?
Difícil dizer objetivamente... Talvez, tenha melhorado na arte de ouvir. O bom ator é aquele que ouve o colega de cena e está pronto para responder, como reflexo. Não é só uma coisa decorada. É o que o outro está oferecendo a você. Talvez este seja o meu maior aprendizado nessa novela.
E, do público, o que você ouviu a respeito da novela?
Para ser sincero, durante essa novela, eu tive pouquíssimo contato com o público. Não posso nem falar de assédio porque não fiz rigorosamente nada além de trabalhar o ano inteiro. Umas poucas vezes fui ao cinema e ao teatro. E só.
E o que pretende agora que a novela terminou?
Gostaria de me dedicar ao teatro o ano inteiro e fazer temporada pelo Brasil. Cinema também seria bom... Adorei fazer ''Avassaladoras'', apesar das críticas que o filme sofreu. Desta vez, daria preferência a um tema mais denso. Quero dar um tempo de televisão. Nada de emendar outra novela. Mas a gente nunca sabe... Sou contratado da Globo. Fico à disposição para uma nova oportunidade... Bem mais para a frente, se Deus quiser!


