Curitiba - Compor um personagem não é tarefa fácil. Assim como seres de carne e osso, um personagem fictício tem passado, futuro e atravessa situações complexas que devem ser transmitidas com sutileza. Quando essa criação, aparentemente inédita, já faz parte do imaginário do espectador, o desafio é ainda maior. O ator Milton Gonçalves decidiu atravessar essas barreiras e aceitou a proposta de viver nos palcos o motorista Hoke Colburn, personagem do já clássico filme ‘‘Conduzindo Miss Daisy’’. O espetáculo, dirigido por Bibi Ferreira, tem duas apresentações neste final de semana, em Curitiba.
Na peça, Gonçalves contracena com Nathalia Timberg, que interpreta a excêntrica Miss Daisy Werthan. ‘‘É a história de uma relação de amizade que beira ao amor platônico’’, diz o ator. Essa relação é permeada por fatos históricos. São abordados 25 anos de história – dos anos 40 até meados da década de 70 – narrados através da ótica de dois personagens ensimesmados.
O texto foi escrito originalmente para o teatro por Alfred Uhry, e ganhou o prêmio Pulitzer do teatro. Mas foi com a versão cinematográfica, que estreou no início da década de 90, que o texto ficou conhecido. O filme rendeu o Oscar de melhor atriz para Jéssica Tandy, no papel de Miss Daisy e o Globo de Ouro para Morgan Freeman, que interpreta o papel do motorista. Já a versão brasileira do espetáculo, que estreou no final do ano passado no Rio, conferiu a Milton Gonçaves o Prêmio Shell e o Prêmio Governador do Rio de Janeiro como melhor ator.
‘‘É que o texto é bom, anda sozinho. Por isso todo esse reconhecimento’’, justifica Gonçalvez para o sucesso do espetáculo dirigido pela dama do teatro brasileiro Bibi Ferreira. Eles já haviam trabalhado juntos na primeira versão de ‘‘Roque Santeiro’’ (Dias Gomes) para o teatro. Mas seu primeiro contato com o texto atual foi já há 14 anos, quando o tradutor Roberto Athayde mostrou a primeira versão para o ator. ‘‘Na época já havia intenção de montar o espetáculo, mas eu estava envolvido com outras coisas’’, conta.
No início do ano passado, Gonçalves acabou aceitando o desafio. Os ensaios duraram sete meses, tempo que o ator levou para ‘‘mergulhar’’ na rica história do personagem que interpreta. ‘‘Eu fiz muitas pesquisas sobre a época do filme, fiz um calendário de ocorrências que provavelmente Colburn atravessou. Sou muito stanislawskiano quando se trata de criar um personagem’’, revela o ator.
Ele diz que preferiu não levar em conta a versão cinematográfica no seu processo de criação, justamente porque são versões diferentes. Em sua tradução, Athayde preferiu preservar o texto para o teatro e não o roteiro cinematográfico.
A história começa quando a independente senhora Daisy, uma judia de 72 anos, bate seu carro novo no jardim vizinho. Temendo por sua segurança, seu filho Bollie (interpretado por Reinaldo Gonzaga, que faz participação especial no espetáculo) convence a mãe a contratar um motorista particular. Sem o consentimento dela, Boolie contrata Colburn, um negro viúvo muito paciente, para preencher o cargo. Começa então uma história de amizade e tolerância que reflete (também) os costumes sociais da época, passando do drama à comédia com uma sutileza capaz de levar o espectador a lágrimas e risos em segundos. Pelo menos é o que propõe o texto.
Se você viu o filme, vá ao espetáculo de coração aberto, mas não esquecendo que está diante de uma obra com intrigantes questões sociais, emocionais e passíveis de despertar um rigoroso questionamento de conduta pessoal. Também é uma ótima oportunidade de conferir a mais recente direção de Bibi Ferreira, que no ano passado completou seis décadas de carreira como diretora.
Serviço: Sábado às 21 horas e domingo às 19 horas, no Teatro Guaíra (Auditório Salvador de Ferrante). Ingressos a R$ 30,00.

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