Miséria em primeiro plano
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terça-feira, 16 de outubro de 2012
Mariana Trigo <br> TV Press 
A reprodução das favelas em novelas e seriados caminha para o realismo. As primeiras referências ao tema começaram em ''Partido Alto'', em 1984, primeira trama que abordou o funk carioca, que veio dos morros do Rio de Janeiro. Na sequência, diversas produções começaram a pincelar o tema, como a minissérie ''Bandidos da Falange'' e ''Pátria Minha'', a primeira novela a construir uma pequena favela em cidade cenográfica para explorar o assunto.
Daí em diante, autores e diretores começaram a se aprofundar na representação da vida nas comunidades carentes. Como Glória Perez, que ambienta parte de ''Salve Jorge'', próxima novela das nove da Globo, no Complexo do Alemão - conjunto de 13 favelas na Zona Norte da capital fluminense.
Tanto que, hoje em dia, além da fidedigna reprodução do cotidiano do crime e da pacificação em favelas, algumas tramas começam a se preocupar em mostrar como surgiu esse gênero de comunidade no país. ''Lado a Lado'', por exemplo, retratou até o ''bota-abaixo'' promovido pelo então prefeito do Rio, Pereira Passos, em 1904, que derrubou cortiços no Centro da cidade. A partir daí, os pobres passaram a ocupar os morros - a começar pelo Morro da Providência -, construindo barracos com a madeira que recolhiam pelas ruas. ''Esse tema está sendo pedido para ser explorado há muito tempo. Precisávamos contar a história de como tudo começou'', salienta Claudia Lage, que assina ''Lado a Lado'' com João Ximenes Braga.
Em ''Salve Jorge'', além das gravações iniciais no Complexo do Alemão, foi construída uma cidade cenográfica de 1800 m2, com 14 prédios. No entanto, a trama mostra uma outra faceta da favela que ainda não havia sido mostrada nas novelas: a comunidade pacificada, que tem um visual mais organizado, segundo a cenógrafa da trama, Erika Lovisi. ''A pacificação do Alemão foi um momento histórico. Parou o país. Queria retratar isso para contar a história de amor de uma moradora com um capitão da Cavalaria'', explica Glória Perez.
''Frequentei muito o Alemão para viver a Morena. As pessoas da comunidade estão orgulhosas de serem representadas na novela. Querem trazer a voz da comunidade'', anima-se Nanda Costa, protagonista do folhetim que estreia no próximo dia 22 na Globo.
No entanto, a Record foi a pioneira na teledramaturgia em gravar tramas dentro de favelas. Em ''Vidas Opostas'', de Marcílio Moraes, o diretor Alexandre Avancini registrou grande parte da história na Comunidade Tavares Bastos, no Catete, Zona Sul do Rio. As locações eram barracos de verdade e a verossimilhança das cenas era tanta que a trama obteve uma das maiores audiências da emissora na teledramaturgia. ''Passei um ano gravando dentro da favela. Era uma dinâmica muito difícil, mas fazer novelas em locações é o grande diferencial da Record. Cidade cenográfica engessa a criatividade'', avalia Avancini.
Mas não é de hoje que a Globo investe em favelas ''cenográficas''. Em ''Duas Caras'', pela primeira vez, uma novela da Globo contava com uma favela - a fictícia Portelinha - que abrigava parte do núcleo central da trama. ''Não dá mais para fazer novela contemporânea e que se passa no Rio sem ter favela'', avalia Aguinaldo Silva, que também incluiu uma favela em ''Senhora do Destino''.
O início da abordagem mais maciça do tema começou após o curta ''Palace 2'', de Fernando Meirelles e Kátia Lund, apresentado na série ''Brava Gente'' em 2001. Foi então que o assunto começou a ganhar cada vez mais destaque na tevê além dos noticiários. Em seguida, o longa ''Cidade de Deus'', que havia estourado no cinema, deu frutos à série televisiva ''Cidade dos Homens'', uma parceria da Globo Filmes com a O2, também dirigida por Meirelles.
Na sequência, a emissora ainda lançou o seriado ''Antônia'', em 2006, de Tata Amaral. A produção deixou de focar na violência das favelas para começar a mostrar outros aspectos das comunidades carentes, como o descaso com a saúde. ''Estava na hora de mostrar a vida da periferia de outro jeito, que não representasse apenas a violência e a miséria'', destaca a diretora.


