Miséria em estado bruto
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de janeiro de 2003
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha 
Na história da humanidade, a miséria sempre foi uma espécie de montanha inabalável. Em alguns momentos, discreta e inofensiva e, em outros, descarada e feroz. Um montanha que, quando vista de longe, pode parecer um cenário do mundo. Mas quando vista de perto, a poucos metros dos olhos, torna-se um soco no estômago, direto.
Os historiadores afirmam que, apesar de marcar presença na realidade das mais diversas épocas e lugares, a miséria nunca foi tema literário até o século 19. Até então aparecia apenas como pontos discretos dentro de romances e novelas que tinham outros temas principais.
Entre os primeiros literatos que elegeram a pobreza como assunto de seus romances estava o escritor e poeta francês Victor Hugo (1802 - 1885). Com Os Miseráveis colocou a miséria como tema principal, arrancando lágrimas de milhares de leitores. A época era propícia para isso, já que as desigualdades sociais era presente em qualquer canto, exigido uma ação transformadora. Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade fertilizavam o terreno, mas as idéias de Karl Marx ainda estavam por vir.
Publicado originalmente em 1862, Os Miseráveis tornou-se um clássico da literatura universal. Nele, Victor Hugo conta a história de Jean Valjean, um homem de bom coração que, desesperado diante da fome, rouba um pão e paga por esse crime pelo resto da vida. Um personagem que presencia todo tipo de miséria e opta pelo caminho da fraternidade como projeto de existência.
Em comemoração ao bicentenário de nascimento de Victor Hugo, a Cosac & Naify acaba de publicar uma nova e bela edição de Os Miseráveis. Trata-se do texto integral traduzido em versão revista e atualizada por Frederico Ozanam Pessoa de Barros, realizada em 1957, e acrescida de centenas de notas explicativas.
Além de O Corcunda de Notre-Dame, Os Miseráveis é a obra mais popular do escritor. É também a obra mais explorada em todos os aspectos. Já foi adaptada para teatro, cinema e quadrinhos. Também já recebeu dezenas de versões mais enxutas, voltadas aos leitores jovens e àqueles que se assustam com as mais de mil páginas do livro, um texto originalmente escrito com uma simples caneta tinteiro.
O Miseráveis foi escrito com um objetivo bem claro. O autor desejava revelar aos leitores como a miséria é fria e ferina, fruto da exploração do homem pelo homem. Para isso criou um romance com alguns temperos das novelas e folhetins. O narrador fala diretamente ao leitor intercalando as histórias propriamente dita e comentários dos fatos apresentados.
Embora o romance conte a história de Jean Valjean, narra também a história de vários outros personagens que passam, de formas distintas, pela sua existência. Assim, surge a história Fantine, uma jovem que executa grandes sacrifícios para manter sua pequena filha Cosette. Na tentativa de sobrevivência, passa de operária à prostituta e, por fim, acaba deixando a Cosette órfã.
Também surge a história do policial Javert, que em sua obstinação de cumprir as leis punindo culpados, comete atos de injustiça em nome da justiça. Quando percebe que sua feroz honestidade é equivocada, entra em colapso. Apresenta também, além de outros personagens, a trajetória de Cosette, de seu sofrimento na pobreza e na usurpação de sua infância, à experiência do verdadeiro amor.
Se levado ao pé da letra, o romance de Victor Hugo pode parecer, nos dias de hoje, um pouco ingênuo com relação que apresenta entre ricos e pobres, entre aqueles que apenas produzem riquezas e aqueles que apenas desfrutam das riquezas. Isso por que não realiza uma abordagem mais aprofundada da situação e talvez nem fosse esse o interesse. Hugo utiliza, como vários outros autores, o tema da miséria para narrar uma história. Uma história que coloca o leitor em contato com a pobreza e suas conseqüências mais imediatas. O grande mérito de Victor Hugo é como ele executa essa tarefa, sempre agarrando com as duas mãos a fé inabalável em direção do bem.
''Através das percepções doentias de uma natureza incompleta e de uma inteligência acabrunhada, sentia confusamente que pesava sobre ele algo de monstruoso. Na penumbra obscura e fosca por onde se arrastava, cada vez voltava o rosto e tentava levantar o seu olhar, via com terror e raiva elevar-se e subir, como uma escada a se perder de vista, rodeada de horríveis abismos, um amontado medonho de coisas, de leis, de preconceitos, de homens e acontecimentos, de contornos indecisos, cuja massa enorme o assustava, e que não era outra coisa que essa prodigiosa pirâmide a que chamamos de civilização. Ele distinguia aqui e ali, em meio a esse conjunto múltiplo disforme, ora perto de si, ora muito longe, em plano inacessíveis, um ou outro grupo, um detalhe vivamente iluminado; aqui o guarda e seu bastão, ali o gendarme armado de sabre, mais diante o arcebispo mitrado; bem no alto, uma espécie de sol, o Imperador a dissipar sua noite, a tornavam mais fúnebre e negra. Todo esse conjunto de homens, leis, preconceitos, fatos, coisas, iam e vinham sobre ele, segundo o movimento complicado e misterioso que Deus imprime à civilização, pisando-o com uma espécie de tranquila crueldade e inexorável indiferença. Almas caídas no máximo dos infortúnios, pobres homens perdidos no mais ínfimo dos limbos, esquecidos de todos, os condenados pela lei sentem pesar-lhes sobre a cabeça todo o peso dessa sociedade humana, tão formidável para quem está do lado de fora, tão terrível para os que são por ela sobrepujados.''
(Fragmento de ''Os Miseráveis'', de Victor Hugo)


