Rio, 01 (AE) - Nos anos 60, Jacó do Bandolim recebia a nata da música brasileira em sua casa e registrava os saraus num gravador de rolo. Após sua morte, em agosto de 1969, as fitas foram levadas, com todo seu acervo, para o Museu da Imagem do Som (MIS) carioca, que lança este mês o CD "Raras Gravações ao Vivo", reunindo o melhor do material, inclusive duas músicas em que ele acompanha Cartola ao violão. O disco não é uma homenagem isolada. Hoje, no mesmo MIS, uma grande roda de choro abre a exposição "30 Anos Sem Jacó", com seus objetos pessoais, instrumentos e partituras.
E o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) terá este mês uma série de shows instrumentais dedicados e ele. Jacó do Bandolim é uma lenda entre os chorões brasileiros, não só por seu talento como instrumentista (ele criou uma linguagem para seu instrumento) e compositor (é autor de clássicos como Noites Cariocas e Assanhado). Durante a vida, assumiu posições que lhe granjearam admiração e inimigos. Perfecionista, era instransigente com os músicos, mas tornou sua profissão respeitada. Ao mesmo tempo em que protegia os novatos talentosos
como Elisete Cardoso, comprou uma briga tola com Waldir Azevedo
outro expoente do choro.
Obsessivo, guardava até ingressos de seus shows e, por isso, foi possível reunir um disco com suas gravações. "A idéia foi da filha dele, Helena Bittencourt, que mandou uma carta manifestando sua preocupação com a conservação de 122 fitas de rolo registrando os saraus da casa de Jacó", conta a presidente do MIS, Marília Barbosa, advogada e biógrafa de cariocas ilustres como Pixinguinha, Cartola e Silas de Oliveira. "E as gravações têm ótima qualidade, porque ele fechava as portas e não permitia que ninguém falasse ou fizesse barulho durante a música".
O pesquisador e compositor Hermínio Bello de Carvalho frequentou os saraus e recebeu do próprio Jacó algumas fitas com o registro, deferência do músico que era ciumento com elas e não as cedia para ninguém. "Eram reuniões fechadas, mas ia todo mundo, de Cartola a Radamés", conta ele, que sempre batalhou pelo lançamento em disco das fitas, mas só conseguiu uma vez, em 1971, quando a RCA Vítor (hoje BMG) lançou o disco "Os Saraus de Jacó". "Ele usava um gravador Grunding, de rolo, e colocava o microfone pendurado na parede, ao contrário do que todo mundo faz".
Pela qualidade do som, Jacó do Bandolim devia saber o que fazia. Nas 13 faixas do CD "Raras Gravações ao Vivo", o som tem uma pureza que não se encontra em registros de shows dos anos 60. Na maioria delas, está acompanhado por músicos que os produtores ainda não conseguiram identificar. "Basicamente era o pessoal do Época de Ouro, grupo que ele fundou", adianta Marília Barbosa. "Interessante é que nessas ocasiões ele se soltava mais que em disco ou apresentações ao vivo e brincava com improvisos, como não fazia nas gravações oficiais", acrescenta Hermínio.
Já na primeira faixa, dá para ver que Hermínio tem razão. O choro "Brejeiro", de Ernesto Nazeré, ganha variações nos solos do bandolim. Ao tocar com Cartola, ele dá espaço para a voz do fundador da Mangueira e ainda o entrevista para saber que a música "Fita nos Meus Olhos", que o sambista acabara de cantar, fora composta logo após a morte de sua primeira mulher, a enfermeira Deolinda. O disco tem ainda uma faixa multimídia, com uma biografia de Jacó. "Quero associar-me a uma gravadora para que o CD chegue a todo o País", conclui Marília Barbosa.

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