São Paulo, 02 (AE) - A fotógrafa inglesa Yevonde Cumbers (1893-1975) foi uma mulher sintonizada com seu tempo, mas, como todos os bons súditos do Império Britânico, tinha os pés presos à tradição. Foi pioneira no uso da cor, recorrendo a um processo cromático muito próximo da pintura hiper-realista, o Vivex, mas não conseguiu se livrar da bagagem barroca na hora de criar a ambientação e os temas de suas fotos. Paradoxalmente, é desse cruzamento híbrido entre modernidade e tradição que nasceu uma fotógrafa quase surrealista, homenageada com uma exposição do British Council no Museu da Imagem e do Som (MIS). A mostra, que se rá aberta amanhã (03), vai até o dia 26 e segue depois para Brasília e Recife.
Organizada pela dupla Brett Rogers e Sean Williams, a retrospectiva apresenta 63 fotografias produzidas a partir de negativos originais em chapas de vidro. Todas elas utilizam o original processo Vivex, patenteado em 1929 por um químico, justamente a época em que o pintor americano Edward Hopper produziu suas telas com o olhar furtivo penetrando na intimidade de seres derrubados pela Depressão. Se Hopper mostra a solidão e o isolamento de melancólicas figuras com o cuidado de um voyeur, madame Yevonde evita a tristeza e reforça a artificialidade dos ambientes reais, o que explica, em parte, sua vocação para a publicidade. Mundo rosa - A exposição tem, aliás, exemplares de 39 trabalhos voltados para a publicidade, até mesmo oito das fotografias encomendadas pela companhia que criou um dos maiores transatlânticos do mundo, o Queen Mary, sinônimo de refinamento que recebeu até decoração da elegante Doris Zinkeisen em 1936. Como Hopper, madame Yevonde foi muito copiada por cineastas. A iluminação do bar do hotel em "O Iluminado", de Kubrick, deve muito à luz do bar da classe turística do Queen Mary fotografado pela aristocrata fotógrafa.
Nascida em Streatham, um bairro ao sul de Londres, em 1893, de uma família rica, Yevonde nunca viu a vida em preto-e-branco. Apenas preferiu esquecer as cores, renunciando ao mundo rosa que seus pais pintaram em sua infância. De fato, cansada de fotografar socialites, uniu-se à causa sufragista, passou pelas cores artificialíssimas do Vivex e retornou ao preto-e-branco, ao qual permaneceu fiel até a morte, em 1975. Madame Yevonde tinha, então, 82 anos e um passado de mulher liberada que muito ajudou a causa feminista.
Suas fotos de "deusas", aparentemente frágeis e sedutoras, escondem críticas ferozes aos papéis sociais e sexuais determinados por uma sociedade patriarcal e chauvinista. Feminismo - É interessante notar que essa vocação feminista foi despertada não por outra mulher, mas por um homem. A série das "deusas" de madame Yevonde, que recriam mitos gregos e romanos na pele de damas da sociedade inglesa, é francamente inspirada pelo surrealismo de Man Ray (que expôs em Londres um ano antes do ínicio desse conjunto de trabalhos). Madame dizia que não. Sua referência, segundo a autobiografia da fotógrafa, era a pintura do século 18, que tinha fixação em deusas ancestrais. De qualquer modo, é preciso reconhecer que seus estudos de nu estão mais próximos da pintura (Ingres, particularmente) do que da fotografia surrealista de Man Ray.
Por outro lado, a série das deusas é francamente paródica, colocando uma pá de cal no tradicional gênero do retrato social. Com certo exagero, é possível definir madame como uma ancestral dos artistas conceituais, considerando o exemplo de uma das últimas fotografias produzidas no laboratório Vivex, fechado em 1940. Um busto de um general romano com máscara de gás, ao lado de um vaso de gerânios despedaçados, é sua delicada representação metafórica dos desastres da guerra. Depois disso seu mundo só poderia mesmo ficar em preto-e-branco. Serviço - Madame Yevonde. De terça a domingo, das 14 às 22 horas. MIS. Avenida Europa, 158, tel. 852-9197. Até 26/9. Abertura amanhã (03) às 20 horas.

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