São Paulo, 14 (AE) - A mostra "De Olhos Vendados", que abre amanhã (15), às 20 horas, no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, carrega um quê do pensamento do fotógrafo Cartier-Bresson: "Foto é um equilíbrio entre o que está dentro de e com o que está fora de nós." Nas 57 imagens selecionadas pela coordenadora do setor fotográfico do MIS, Isabel Amado, 19 repórteres fotográficos da Agência Estado e da Folha Imagem trazem à tona expressões de drama, ódio e consternação dos menores e familiares, exteriorizadas durante a maior rebelião da história da Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem).
Além das imagens, estão expostas as páginas dos jornais, um estudo sobre o perfil das famílias, feito pela Universidade de São Paulo (USP), em 1997, e um glossário com gírias dos internos - por exemplo, chico doce significa pancada de pé de cadeira, de mesa ou cabo de enxada, enrolados ou não em borracha; naifada, facada; trem, ser arrastado, surrado.
De acordo com a pesquisa da USP, das 300 famílias entrevistadas, 39% têm ligação com igrejas evangélicas e 24% com a católica e a renda familiar fica em torno de um a cinco salários mínimos. São dados que ajudam a compôr um mosaico sobre o motim.
Ao montar a exposição, a curadora teve a intenção de reavivar a reflexão. "O nome De Olhos Vendados é uma analogia à tarja preta posta, nas imagens, sobre os olhos dos menores; um recurso, exigido por lei, para protegê-los", diz. "Mas se a lei exige proteção, por que os internos são tratados como porcos?", questiona Isabel.
A cobertura no caderno "Cidades", do jornal "O Estado de S.Paulo, da rebelião ocorrida em outubro na unidade Imigrantes da Febem, motivou Isabel a fazer a mostra. "Apesar de tratar de um fato, acho que se poderia obter um bom resultado estético." Mas, com as idas e vindas aos arquivos dos jornais O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Folha de S. Paulo e Notícias Populares, a curadora acabou mudando o enfoque: o resultado é um trabalho documental.
Os depoimentos de dois repórteres fotográficos dão um caráter ainda mais instigante e pessoal a respeito da rebelião. Caio Guatelli, da Agência Estado, invadiu, sorrateiramente, a bomba-relógio, como definiu o então diretor da unidade Imigrantes, Guido Andrade. Ele passava por lá apenas para buscar um filme de um colega de plantão, até que decidiu pular o muro dos fundos. Lá dentro, acharam que fosse um policial civil, pela roupa que usava (calça jeans e camiseta pólo preta).
Dirigiu-se para a delegacia interna da fundação. Esperou alguns minutos e saiu com sua câmera pendurada no pescoço, fingindo ser fotógrafo da perícia. Cumprimentou os policiais que passaram por ele e tirou, com exclusividade, fotos da destruição interna da instituição. Só foram pedir sua identificação passada meia hora que estava lá dentro. Guatelli escondeu os cinco filmes rodados na cueca e outros três virgens na meia, primeiro lugar a ser revistado. Ao encontrar estes últimos filmes, os policiais deram-se por satisfeitos; mas, ainda assim, ele foi levado a um camburão, onde permaneceu por uma hora, e apanhou. O medo bateu: ninguém o viu sendo capturado, poderiam "dar um sumiço" nele. Foi solto somente após mentir sua identidade, passando-se por assessor de Imprensa do Palácio do Governo e sobrinho do coronel da Tropa de Choque.
Se Guatelli foi à caça da imagem, a imagem surgiu na frente de Joel Silva, da Folha Imagem. O dia amanhecia e, atento a todos os movimentos, ele avistou os menores arrombando um portão no fundo do pátio e fugindo na sua direção. Como havia pouco policiamento, eles começaram a apedrejar tudo e todos. À espreita da fuga, preparou a câmera. Acompanhou os menores até ser interceptado pela polícia. A Tropa de Choque enfrentou os rebelados com bombas de efeito moral e balas de borracha.
Pelas lentes desses repórteres fotográficos, a Febem parece uma casa de isolamento, impessoal e desumana, que não produziria outro efeito a não ser a frieza do crime e castigo: naqueles dias, foram registrados quatro mortes e 58 feridos. Febem é, hoje e sempre, a materialização do salve-se quem puder.

mockup