MIS faz ciclo sobre a desbocada Mae West
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quinta-feira, 09 de setembro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 10 (AE) - Ela foi a mais desbocada das estrelas que já brilharam no firmamento de Hollywood. Mas desbocada era pouco para definir o estilo iconoclasta de Mae West. Com seu deboche, ela foi uma das responsáveis pelo surgimento da censura no cinema americano. É que Mae West não perdia oportunidade para dizer suas piadas picantes. Ela também não perdia tempo olhando os atores com quem contracenava nos olhos. Olhava diretamente para a genitália, como quem avalia. Foi uma precursora do feminismo, embora as feministas nunca a tenham erigido em mito. Achavam Mae espalhafatosa e vulgar demais.
Ela era, como você poderá confirmar ainda este mês. Um pacote com quatro DVDs da Continental vai reabrir o debate em torno da vamp mais atrevida da história do cinema. No dia 24, um ciclo no Museu da Imagem e do Som, com entrada grátis, vai reanimar ainda mais a polêmica. Mae era espalhafatosa e vulgar, sim, mas era inteligente e conseguia ser brilhante denunciando a hipocrisia sexual na sociedade americana dos anos 30, sua grande fase. Ela cunhou a célebre frase: "Quando eu sou boa sou ótima, mas quando sou má sou melhor ainda." E como era má - a precursora das bads girls. Madonna, antes da filha, com certeza bebeu na fonte de Mae West.
Suas piadas entraram para a história. "Ama o teu próximo e, se ele for alto, moreno e bonitão, será muito mais fácil." Outra: "O que importa não são os homens na minha vida, mas a vida em meus homens." Mae não era apenas assanhada: embora adorada por gays e drag queens e considerada muitas vezes um travesti, nunca quis nada com o homossexualismo. Gostava mesmo era de homens e nunca teve vergonha de demonstrá-lo, muito menos de deixar claro qual era, no homem, a sua porção preferida. Ela já tinha 77 anos quando fez "Homem e Mulher até Certo Ponto", a adaptação que Michael Sarne fez de "Myra Breckinridge", de Gore Vidal, sobre uma operação de mudança de sexo. Não foi seu último filme (em 1970), porque ela ainda fez, oito mais tarde, "Sextette", com um jovem que depois virou James Bond, Timothy Dalton.
Sarne jura que, no set de "Myra Breckinridge", Mae era mais afoita do que a estrela Raquel Welch. Queria levar todos os rapazes para a cama. Por isto mesmo, diz que ela não teve o menor problema para inventar o diálogo com o caubói. Chega o sujeito alto e desengonçado para um teste com Mae, que faz o que gostava de fazer: representava uma deusa do sexo que se recusava a se aposentar. Ela pergunta: "Quanto você mede, meu filho?" Ele responde: "2m18." Ao que Mae, prontamente, retruca: "Vamos esquecer esses 2 metros e nos concentrar nos 18 centímetros."
Assim era Mae West. Ela nasceu em Nova York, filha do pugilista Jack West. Há controvérsia quanto à data. O mais provável é que tenha sido em 1893. Aos 5 anos já estava no palco. Aos 15, representava de forma maliciosa e sensual. Fez carreira no burlesco e no vaudeville antes de desembarcar em Hollywood. Na chamada "meca do cinema", como Hollywood era chamada na sua época, deu lições de sexo e sacanagem em 11 filmes que a estabeleceram como estrela.
Uma estrela censurada e que Hollywood adorava detestar. Contam que Mae era hostilizada dentro da indústria por seu comportamento. Mas o público a adorava, os filmes faziam sucesso de escândalo e Mae foi levando a carreira. "Devo o que sou à censura", teria ela declarado um dia. Já era uma estrela no palco, mas o cinema insistia em ignorá-la. Foi assim até o comerço dos anos 30, quando a empresa Paramount lhe ofereceu o papel principal em "Noite após Noite", de Achie Mayo, ao lado de George Raft. A partir daí, a história de Hollywood e o sexo no cinema nunca mais foram os mesmos.
Pouco antes de morrer, em 1980, Mae declarou numa entrevista que nos filmes e livros que escreveu e protagonizou, tentou sempre mostrar que uma mulher deve ter os mesmos direitos dos homens. Ela dizia que começou a tomar consciência de si mesma no fim dos anos 20, mais exatamente em 1927, quando foi condenada a pagar uma multa de US$ 500 e a ficar na cadeia por dez dias, acusada de incitar a juventude à corrupção e à degradação com sua peça "Sex".
Outra talvez se acomodasse, intimidada. Mae West tornou-se mais provocadora, ainda. Fez história. Continuou cunhando frases de efeito. "Já tive tantos homens que, às vezes
acho que o FBI devia chamar-me, quando quisesse confrontar as impressões digitais"; "Eu nunca iria para a cama com um perfeito desconhecido, a menos que fosse um desconhecido perfeito"; "Entre dois males, escolho sempre o que não experimentei"; "Já estive em mais colos do que muito guardanapo."
Em "Santa não Sou", de Wesley Ruggles, contracenou com o novato Cary Grant. É uma das atrações do pacote e do ciclo, que têm o sugestivo título de "Luzes para Mae West". Os outros títulos são: "Noite após Noite, Uma Dama do Outro Mundo, de Leo McCarey, e "Sereia do Alasca", de Raoul Walsh, diretor de westerns e filmes de gângsteres que lhe ofereceu um papel à altura.


