Curitiba São dois espetáculos de época, mas abordam situações distintas. Um fala sobre saneamento e sobre os imigrantes que viviam apinhados em cortiços, no final do século 19, no Brasil. O outro aborda as agruras das conquistas amororas e foi escrita há mais de dois séculos pelo italiano Carlo Goldoni. Mas as diferenças entre ''Hygiene'' e ''Mirandolina'', duas peças em cartaz no Festival de Teatro de Curitiba não acabam por aí e mostram duas tendências antagônicas do teatro contemporâneo.
Uma, que pode ser vista no ótimo ''Hygiene'', é a capacidade do diretor (e do elenco) de transportar uma questão antiga para os dias atuais. De fazer com que o público entenda que existem problemas e situações universais, que podem mudar a abordagem com o passar do tempo, mas são inerentes ao ser humano. O diretor de ''Hygiene'', o jovem promissor Luiz Fernando Marques, consegue ultrapasar as barreiras do palco como espaço cênico. Não só soube orquestrar a montagem, como demonstrou excelência na arte de adaptar o espetáculo a um novo local.
A peça começa em frente a Igreja do Rosário e convida o público a um cortejo pelas calçadas do Largo da Ordem até a entrada da Casa Vermelha, cujo interior abriga o restante do espetáculo. Em quase duas horas, os seis atores conseguem fazer com que o público ria, se emocione, se divirta e pense. E o teatro tem outra função?
Já em ''Mirandolina'', o diretor veterano Roberto Inocentte, italiano radicado em Curitiba, restringe a apresentação ao palco e aos clichês do teatro convencional, sem maiores ousadias. Na estréia do espetáculo, no útlimo dia 17, os atores pareciam pouco à vontade interpretando os personagens, com excessão de Mauro Zanatta, acostumado ao tipo de humor que o diretor tentou abordar, e que muitas vezes acordava a platéia de cochilos com suas ótimas gags. Talvez uma temporada maior dê mais ritmo à montagem, a única representante paranaense da Mostra Contemporânea do FTC. A montagem encerrou as apresentações no evento, mas volta em cartaz em Curitiba depois do festival.

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