MINIATURAS LITERÁRIAS
Nelson Sato
De Londrina
Quem começa no conto, acaba escrevendo romances. Assim rezava uma certa cartilha, para a qual a narrativa curta seria apenas um exercício para o escritor ganhar densidade ficcional até afirmar-se em obras de maior fôlego.
Tudo balela, combatida com veemência pelos textos do curitibano Dalton Trevisan, cuja tendência para a economia de palavras salta aos olhos no volume de bolso 111 Ais, que acaba de chegar às livrarias pela editora L&PM.
Trata-se de uma seleção de 111 minicontos garimpados dos livros Ah, É?, 234 e Pico na Veia. Trevisan, mestre do rigor conciso, parece se aproximar cada vez mais do hai-kai. O amor é uma corruíra no jardim de repente ela canta e muda toda a paisagem, anota na primeira página. Solta do pessegueiro a folha seca volteia sem cair no chão um pardal, registra mais adiante.
A delicadeza poética dessas linhas iniciais, entretanto, é enganosa. No restante do volume, a ênfase é de um olhar desiludido e trágico sobre o gênero humano, que cisca aqui e ali a fronteira do grotesco.
Para transar, o meu marido me passa talco no corpo inteiro: eu, nuazinha, com uma chupeta vermelha na boca. Quando vou comprar na farmácia, digo que é para o meu filhinho, que nem tenho.
Como neste exemplo, o autor desfila micro-histórias que muitas vezes não ultrapassam duas linhas. Em quase todas, os temas e personagens se repetem com variações em torno de sexo, desejo, solidão e morte. A miséria conjugal surge como uma obsessão para dar vazão a pequenas crueldades:
Na cama, diz o marido:
Você é gorda, sim. Mas é limpa.
...
Você é feia, certo? Mas é de graça.
Já foi dito que Trevisan não é dado a compaixão, que vê seus personagens com indiferença e desprezo, reforçando a metáfora do vampiro a ele associada. Ao longo do livro, proliferam vidas vazias, gente acossada pela miséria espiritual. Reitera-se o universo sórdido em que gravitam joões e marias, as situações repugnantes, as feridas cutucadas que tanto projetaram a escrita cortante do autor. Para encerrar, fiquem com mais um conto demolidor:
O jantar para os dois casais amigos. Na parede uma das mulheres nuas de Modigliani. Tanta festa, muito riso: o lombinho uma delícia. Até que um dos maridos:
Essa moça do quadro. Ela sorri para você?
á É o meu consolo das horas mortas.
A dona acode, oferecida:
Ela sou eu, não é, bem?
Um murro na mesa estremece prato e espalha talher:
Ela é você? Quando você teve esse amor desesperado nos olhos? Esse perdão infinito na boca?
Outro soco espirra vinho tinto na toalha:
Não se conhece, sua bruxa?
O volume faz parte da coleção L&PM Pocket. Os contos são acompanhados de ilustrações de Ivan Pinheiro Machado, muitas delas inspiradas em desenhos e pinturas de E. Munch, A. Varenne, M. Schulteiss, Modigliani e T. Lautrec.Coletânea de Dalton Trevisan reúne minicontos selecionados dos livros Ah, é?, 234 e Pico na Veia
Nani Góes/Arquivo FolhaDalton Trevisan: olhar trágico sobre o gênero humanoReproduçãoLivro reúne textos selecionados dos três últimos títulos publicados pelo autor





