Mini-Aurélio, para o dia-a-dia
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de abril de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
ReproduçãoAndréa Beltrão e Daniel Dantas, em Pequeno Dicionário AmorosoSe alguém um dia pensou em fazer o filme-piloto para a série televisiva A Comédia da Vida Privada, este seria sem qualquer dúvida Pequeno Dicionário Amoroso(veja a programação de cinema na página 3). E não há neste raciocínio nada que desmereça o simpaticíssimo filme-glossário de Sandra Werneck, de resto valioso tributo para a atual trajetória de ressurreição do cinema brasileiro. Este momento de retomada requer especial reflexão diante do mercado consumidor, isto é, nosso respeitável público. Por um lado desacostumada com o produto nacional banido das salas do País - pelo simples fato de inexistir - e por outro entorpecida pela ampla e soberana esfera de ação do similar estrangeiro, a platéia do filme brasileiro decidiu ficar em casa vendo tevê, a princípio por comodidade e logo por adesão. Com exceção da não lucrativa Cultura, com grades de programação ideologicamente direcionadas, as demais redes tiveram e ainda têm grandes dificuldades em lidar com este segmento, digamos, aspirante a certa sofisticação intelectualizada. Mais arejada e consequentemente menos emburrecida que as outras, e obviamente com mais recursos, a Globo recorreu outra vez à sua respeitável divisão de dramaturgia, contratou bons escritores e em pouco tempo pôs no ar um sucedâneo para a então desaparecida crônica urbana de costumes. Surgia A Comédia da Vida Privada, uma das Terças Nobres sob inspiração direta, e com participação nos textos, do humorista Luis Fernando Veríssimo. Com a solução ficaram todos felizes: a Globo, o elenco de bons comediantes aproveitados no que têm de melhor e o público, que vê mensalmente, com indolente agrado, um número significativo de fatos, pessoas e situações à sua imagem e semelhança.
Resgate O golpe de mestre deve ser anotado. E aplaudido. Pequeno Dicionário Amoroso vem lotando cinemas pelo Brasil afora, principalmente com este público das noites caseiras e modorrentas. O resgate vem se dando através de um filme original (até onde isto é possível em função do tema) e divertido sobre as ditas e desditas do relacionamento homem-mulher , desde o primeiro momento de atração até a despedida final. Escrito a quatro mãos pelo carioca Paulo Halm e pelo paulista José Roberto Torero, Dicionário está mais à feição deste último. Torero é o que se pode chamar de cronista de utilidades domésticas e afetivas, um hábil escriba de usos e costumes da modernidade neoburguesa. São dele alguns dos melhores curtas-metragens de safras recentes, como o premiadíssimo Amor e o episódio Bolo, o mais cáustico do longa Felicidade É... . O formato de narrativa fracionada de Dicionário, através de verbetes em ordem alfabética intercalados por comentários bem-humorados, bem como a sutil e engenhosa manipulação de clichês sociológicos, psicológicos, estatísticos e poéticos na aventura conjugal do cotidiano, são privilégio de Torero. E a diretora Sandra Werneck, formada na escola documentarista, soube aproveitar este material, além de trazer para seu primeiro filme de ficção bons momentos de quase cinema-verdade, dissecando com ternura as cenas de um casamento.
Já que o cinema corteja a televisão - e o namoro deve ser estimulado -, estão todos aqui. Todos quer dizer todos, da novela das seis a Você Decide, desde o casal Luiza-Gabriel/Andréa Beltrão-Daniel Dantas até a participação especial de Marcos Winter, passando por Glória Pires, José Wilker, Tony Ramos e Monica Torres. E são aquilo mesmo que se espera deles, heróis televisivos tentando passar pela janelinha do vídeo em busca de mais espaço para o cinema brasileiro.


