'Minha vagina era a minha aldeia'
Minha vagina era verde, rios delicados, campos cor-de-rosa, vacas mugindo, sol descansando, doce namorado passando levemente um macio pedaço de palha.
Há alguma coisa entre as minhas pernas. Não sei o que é. Não sei onde está. Eu não toco. Não agora. Não mais. Não desde.
Minha vagina era muito animada, não podia esperar. Tantas palavras para dizer, tantas palavras para pronunciar. Tentava sempre. Não podia parar de dizer oh sim, oh sim.
Não, desde que sonhei que haviam costurado um animal morto lá embaixo; que o haviam costurado com uma grossa linha preta de pescar. E o cheiro ruim de animal morto não pode ser removido. Sua garganta foi cortada e sangra através de todas as minhas roupas de verão.
Minha vagina cantando todas as canções para meninas, todas as canções acompanhadas pelos sinos das cabras, todas as canções campestres do selvagem outono, canções de vagina, canções do lar da vagina.
Não, desde que os soldados enfiaram um longo rifle dentro de mim. Tão frio o cano de aço, abatendo meu coração. Não sei se dispararão o rifle ou atravessarão meu cérebro com ele. Seis deles, médicos monstruosos, usando máscaras negras e enfiando garrafas dentro de mim. Havia varas e um cabo de vassoura.
Minha vagina, rio onde se nada, água limpa e cristalina, espirrando contra pedras que se banham ao sol, continuamente.
Não desde que ouvi a pele se rasgando, produzindo sons uivantes, penetrantes; não, desde que um pedaço de minha vagina apareceu em minha mão; uma parte do lábio. Hoje, só tenho um dos lábios.
Minha vagina, vila viva banhada pela água. Minha vagina, minha aldeia.
Não, desde que faziam turnos de sete dias cheirando a fezes e carne defumada; deixando seu sujo esperma dentro de mim. Tornei-me um rio de veneno e pus; a colheita morreu e os peixes também.
Minha vagina, vila viva banhada pela água.
Eles a invadiram, chacinaram e queimaram.
Não a toco mais.
Não a visto.
Agora, moro em outro lugar
que não sei onde é.





