Mineiro cosmopolita
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sexta-feira, 26 de junho de 1998
André Bernardo Cult Press 
Milton Nascimento está a todo vapor. Nem mesmo o torpor coletivo causado pela Copa do Mundo é suficiente para manter longe do trabalho o cantor e compositor nascido no Rio de Janeiro mas criado na cidade de Três Pontas, em Minas Gerais. Mal acabou de entrar em estúdio para finalizar a trilha sonora do filme O Viajante, de Paulo César Saraceni, Milton já começou a escolher o repertório de seu próximo álbum, que vai ser lançado ainda este ano pela WEA. Entre as músicas já selecionadas, ele destaca Mar Interior, de Fernando Brant e Túlio Mourão, e Maria é Dia, uma inédita de Tom Jobim. O Paulo quase desmaiou quando ficou sabendo que o Tom deixou essa toada composta especialmente para o filme, recorda.
Em seu próximo disco - ainda sem título definido - Milton Nascimento pretende retomar algumas de suas parcerias mais famosas, como com Ronaldo Bastos, com Lô Borges e, principalmente, com Fernando Brant, o autor de hits como Travessia e Canção da América. No ano em que o disco Clube da Esquina completa 25 anos, Milton Nascimento não esconde uma ponta de satisfação ao falar da iniciativa de alguns remanescentes do movimento, como Flávio Venturini e Beto Guedes, de regravar os maiores sucessos do álbum em seus próximos discos. Bom, cada fase é uma fase, né? Mas a que mais me empolgou foi a do Clube da Esquina mesmo, admite.
O repertório do novo disco, porém, não deve ficar restrito aos ex-companheiros de Clube da Esquina. Milton Nascimento avisa que o novo álbum deve inaugurar algumas parcerias inéditas. Como a com Samuel Rosa, vocalista do grupo Skank, e com Carlinhos Brown, mentor do grupo Timbalada. Estou aberto para novas parcerias. Sinto como se estivesse começando..., brinca. Bem-humorado, Milton recorda que conheceu Carlinhos Brown em 1997, num réveillon na casa de Gilberto Gil em Salvador, na Bahia. A identificação entre Milton e o elogiado compositor baiano foi imediata. A gente tem muito a ver, em todos os sentidos..., frisa.
Aos 56 anos, Milton Nascimento se diz completamente restabelecido da crise diabética que o derrubou no ano passado. Mesmo obrigado a tomar injeções diárias de insulina, o autor de Maria, Maria e Nos Bailes da Vida ressalva que aprendeu a tirar o tratamento de letra e anuncia sua disposição de trabalhar como ator. Depois de fazer esporádicas participações no cinema - como nos filmes Fitzcarraldo, de Werner Herzog, e Os Deuses e Os Mortos, de Ruy Guerra - Milton retorna aos sets em O Viajante, dirigido por Paulo César Saraceni a partir de um romance de Lúcio Cardoso. No filme, faço vários papéis. Entre eles, o de um tocador de realejo, gaba-se.
Paralelamente aos novos projetos, Milton Nascimento festeja o disco de platina que já ganhou pela vendagem de 250 mil cópias de Tambores de Minas. Gravado em março deste ano no Teatro João Caetano, no Rio, esse álbum é o registro ao vivo do CD Nascimento, que ganhou o prêmio Grammy na categoria de world music. Depois de concorrer cinco vezes, Milton está tão satisfeito com a premiação que parece não se importar com o fato de ter sido incluído numa categoria tão vaga que inclui nomes como a cantora cabo-verdiana Cesária Évora e o grupo de música flamenca Gipsy Kings. Essa história começou quando gravei Native Dancer com o Wayne Shorter. Os americanos não sabiam muito bem como me classificar e inventaram esse negócio de world music, acredita.
Apesar de já ter lançado um álbum ao vivo recentemente - o Amigo, de 96 - Milton Nascimento decidiu apostar novamente no formato. É um dos shows mais caros e elaborados da minha carreira. Não podia ficar só na lembrança, justifica. Mesmo acreditando que o Grammy torna o cantor mais reconhecido no mundo inteiro, o cantor prefere excursionar com o espetáculo Tambores de Minas pelo Brasil e diz que só volta a se apresentar lá fora em 99, quando tem shows agendados na Europa e no Japão. Não faço distinção de público. Quando estou no palco, me sinto em casa, conclui.


