São Paulo, 27 (AE) - A mais importante biblioteca brasiliana privada do País deverá ser instalada na Universidade de São Paulo (USP) em dois anos. Trata-se da coleção de mais de 15 mil volumes do empresário e bibliófilo José Mindlin. O empresário assinou na semana passada protocolo com o reitor Jacques Marcovitch, da USP, para a criação no campus universitário de uma entidade de direito privado que administrará a nova biblioteca.
Mindlin pretende transferir progressivamente sua coleção para a USP, que doará uma área de 10 mil metros quadrados para a construção do edifício que abrigará a biblioteca. A brasiliana representa metade da biblioteca privada do empresário, que ele começou a formar há 72 anos, aos 13 anos de idade.
"Eu não tenho o fetiche da propriedade", diz Mindlin. "Esse é um conjunto que deve ser preservado porque dificilmente seria recomposto, e só criando uma entidade poderemos assegurar sua preservação." José Mindlin inspirou-se no modelo da John Carter Brown Library, de Providence (Rhode Island), nos Estados Unidos, biblioteca que começou como uma coleção particular e hoje já é uma das maiores do mundo em documentos raros sobre as Américas. O empresário também integra o conselho da John Carter Brown Library.
Transferência - O acordo com a USP ainda não significa uma doação. Mindlin quer manter o controle sobre seu acervo "pelo menos nos próximos 99 anos", brinca. Esse é o tempo que durará inicialmente a doação do terreno pela USP. A universidade manterá um membro no conselho da sociedade, mas não participará da administração, que Mindlin pretende entregar a pessoas de notório saber da comunidade.
"A transferência de todo o acervo vai ser definida só após a gente levar a breca", afirma Mindlin, com seu senso de humor peculiar. Sua cautela diz respeito também ao futuro. "O que aconteceria se a universidade fosse privatizada?", pondera. Ele diz que já tem uma empresa interessada em investir no projeto e também os arquitetos que deverão encarregar-se do projeto - provavelmente Flávio Mindlin Guimarães e Eduardo de Almeida.
A coleção de livros de José Mindlin começou a ser construída na década de 20, quando ele, ainda garoto, entrou num sebo e comprou o "Discurso sobre a História Universal", escrito em 1740 pelo bispo francês Jacob Bossuet.
Sua brasiliana tem, entre outros, os originais de "Grande Sertão: Veredas" e "Sagarana", de João Guimarães Rosa; a gramática do padre José de Anchieta, escrita em 1595; a primeira edição de "O Guarani", de José de Alencar. Possui livros de e sobre o País do século 16, um deles datado de 1508.
Em 1987, sua coleção anexou outra preciosa biblioteca, a de Rubens Borba de Moraes. "Ele nos deixou tudo já com essa idéia, a de criar um centro de estudos", relata Mindlin. Ele também já recebeu manifestações de interesse de outros colecionadores, que pretendem engrossar o acervo assim que for constituída a nova sociedade, a partir do ano que vem.
Uma das razões para a decisão de Mindlin é possibilitar maior acesso aos pesquisadores. Na sua casa, no Brooklin, ele costuma recebê-los, mas nunca em número maior do que dois ou três. Na USP, esse acesso será muito maior e organizado, observa. Foi a partir de pesquisas em seu acervo que foi produzida boa parcela dos volumes 1 e 2 da "História da Vida Privada no Brasil".
A coleção toda de Mindlin é rara. Trata-se um acervo inestimável. Em "chute", já foi avaliado em US$ 30 milhões. Mas quanto valeria uma edição de "Triunfos", de Petrarca, escrita em 1488 (obra mais antiga do acervo)? Não tem preço.
Mas Mindlin considera que, do acervo todo, apenas a brasiliana não é "divisível", ao contrário do restante de sua biblioteca, que tem de tudo - de literatura francesa a artes gráficas. O fato de o material passar para uma instituição lhe dá certa tranquilidade. "Assegura uma razoável confiança de continuidade", confidencia.

mockup