Minas faz festival de dança indígena
São Paulo, 17 (AE) - Grande celebração indígena e uma oportunidade de encontro entre as tradições nativas e a sociedade ocidental moderna, o 2º Festival de Dança Indígena será realizado do dia 25 ao 29 no Parque Nacional da Serra do Cipó, em Minas. O festival, que já faz parte do calendário oficial de eventos do Estado, mostra a cultura indígena viva e atuante e não como algo glamourizado ou peça de museu.
"Há dez anos tive um sonho sobre este lugar, nessas montanhas da Serra do Cipó", conta Ailton Krenak, idealizador do festival. "No sonho, nossos antigos reclamavam que não fazíamos mais festas para eles, que estávamos abandonando nossos ritos; então reuni outros parentes e disse que precisávamos retomar nossas celebrações, nossos rituais."
Os anfitriões da festa são as tribos mineiras - crenaques, maxacalis, pataxós e os xacriabás. Para dar início às cerimônias, as quatro tribos entram no terreiro de dança vindas de quatro direções - que representam o vento, a água, o fogo e a terra. Também vão participar com suas danças os índios caxinauas
do Acre; terenas, do Pantanal; e guaranis, de São Paulo, Rio e Espírito Santo. Até do Japão chegam convidados: membros da tribo ainu, os antigos habitantes das ilhas, agora encontrados só no extremo norte do País, em Hokkaido. Futuramente o festival espera abrigar tribos de todas as partes do Brasil e de vários países da América.
"Nossas cerimônias são períodos de consagração inseparáveis do nosso caminho, uma extensão do nosso dia-a dia"
explica Krenak. "Cada tribo vem para consagrar este lugar, comemorar a vida, curar a Terra e ser curado", completa.
A dança é para os índios parte integrante da vida, presente em todos os momentos, assim como o canto. Dançam para plantar, para pescar, para caçar. Há danças para o plantio do milho, para a colheita da mandioca, para os rituais de passagem. "Assim nos mantemos conectados com a energia vital, num fluxo não interrompido e preservamos a saúde", diz Krenak. "Enquanto a pessoa anda em equilíbrio, não adoece."
A húngara e o russo - Os crenaques, mais conhecidos como botocudos, têm uma interessante história de resgate cultural. Vivendo no norte do Espírito Santo, na fronteira com a Bahia, na época do Descobrimento, cedo entraram em contato com os colonizadores portugueses e foram sendo dizimados ao longo do tempo.
Os poucos que sobreviveram, em constante conflito de terras com grileiros e fazendeiros que se instalavam em seu território, foram perdendo suas tradições, seus rituais e até sua língua.
Há alguns anos, uma historiadora húngara, Eva Sebastian, entrou em contato com os crenaques: havia encontrado, em São Petersburgo, os diários de um viajante russo, H. Maniser, com contos e canções da tribo, escritos em russo e na língua crenaque. No começo do século, o viajante havia convivido longamente com a tribo, registrando minuciosamente seus costumes e histórias, incluindo descrições dos rituais e desenhos das pinturas corporais. A historiadora está traduzindo o diário do russo para o português e pondo o material à disposição da tribo.
Num original desdobramento da globalização, esse material, via Rússia e Hungria, vem reforçar o trabalho em curso dos crenaques de recuperar suas tradições e sua língua, valendo-se principalmente da memória oral dos mais velhos da tribo.
O Festival de Dança conta com o apoio da Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais. No 1º festival, em setembro do ano passado, 1,4 mil alunos da rede municipal de ensino da região visitaram o local, participaram de oficinas de pintura corporal e dançaram com os índios. Neste ano são esperados muito mais alunos, assim como artistas, pesquisadores e outros visitantes.
Memorial - A Serra do Cipó, cabeceira dos rios que formam o Rio Doce, é local antigo de peregrinação indígena: encontram-se em suas grutas, paredões e rochas inscrições rupestres de mais de 8 mil anos que mostram cenas de caçada e espécies de fauna primitiva, como antas e tatus gigantes.
No local do festival está sendo construído o Memorial dos Povos Indígenas, um conjunto de instalações que vai reproduzir uma aldeia usando tecnologia moderna e arquitetura tradicional. O espaço vai abrigar uma biblioteca, um museu com objetos produzidos nas aldeias, várias oficinas e estúdios.
"Vai ser um espaço de convivência e troca entre as culturas tribais e a cultura moderna", diz Ailton Krenak. "A cultura dá sentido às relações humanas", prossegue. "Aqui preservamos nosso jeito de ser, mas adaptamos as práticas para possibilitar um relacionamento frutífero, esse contato sempre protelado, que ainda não aconteceu nestes 500 anos."
Outras informações sobre o festival no Núcleo de Cultura Indígena podem ser obtidas pelo telefone 0xx-11-3722-1754 ou pelo e-mail: [email protected]. O núcleo também vende o CD com as músicas do 1º Festival.





