São Paulo - Após alguns toques no telefone, breve suspense, alguém atende. Não é o Milton. ''Sabe o que é? Ele recebeu uma visita que estava aqui desde o almoço e foi embora há pouco'', explica gentilmente um rapaz. ''Era o Wayne Shorter'', diz. ''O Milton precisa descansar. Você pode ligar daqui a uma hora?'' A missão de entrevistar Milton Nascimento, já cercada de expectativas, ganhou ares de interferência. Como manter o fôlego para atender a reportagem depois de longa e proveitosa tarde ao lado de um dos maiores gênios do jazz? Milton não pareceu cansado, nem incomodado. Foi prestativo, queria falar do show que fez no palco da Via Funchal, quando mostrou as músicas de seu disco mais recente, ''...E a Gente Sonhando'', lançado no ano passado.
Antes, porém, fez questão de falar sobre o amigo de longa data. ''Foi por causa de Wayne Shorter que eu comecei a ser convidado por artistas de vários lugares do mundo'', conta. Juntos, eles gravaram em 1974 ''Native Dancer'', referência na fase elétrica do saxofonista americano. O jazz que, segundo ele, nunca foi um acaso em sua vida. ''Quando comecei a compor, eu pensei que deveria estar aberto a tudo que viesse de música, religião e política.''
Tradicionalmente cosmopolita, a produção de Milton se voltou para seu próprio passado em seu último trabalho. O lar afetivo Três Pontas, no sul de Minas, onde passou parte da infância e da juventude, é o que abastece as 16 faixas de ''...E a Gente Sonhando''. Com o violonista Marco Elízeo, também trespontano, ele foi apresentado a jovens expoentes da música da cidade, ainda na época do DVD ''Pietá''. Vinte cinco deles, entre cantores, compositores e instrumentistas, foram escolhidos para gravar o CD. ''Três Pontas é um canteiro de músicos. Cada vez que você fica dois meses sem aparecer, quando volta já tem um monte de criançada tocando, e tocando bem'', conta orgulhoso.
Foi na cidade, ainda menino, que Milton aprendeu a cantar, ''nas festas de rua e quermesses'', lembra. ''Eu acompanhava minha mãe com a sanfona.'' O talento, logo percebido pela vizinhança, tinha especial vocação para o improviso. ''Quando eu tinha 6 anos, eu contava histórias para outros meninos que apareciam lá em casa. Era como um filme de Walt Disney, que tinha narração e de repente aparecia uma música. Eu inventava essas canções.''
O início de tudo
O mesmo cinema que o inspirou a distrair a molecada, foi quem o fez acreditar que deveria compor, justamente após uma sessão de ''Jules et Jim'', clássico da nouvelle vague. ''Quando eu e Marcinho (Márcio Borges) deixamos o cinema, eu bati no ombro dele e falei: 'Vamos pra sua casa, vou pegar um violão e você um caderno e uma caneta. Vamos começar a compor hoje'.''
Milton não esconde que ainda sonha em ser chamado para criar a trilha sonora de um longa, algo inédito em sua carreira. ''Eu nunca vou deixar de querer isso.'' Já para o show, musical e com grande elenco, ele ofereceu uma imersão pelas montanhas e estradas de uma cidade que mais parece a New Orleans de Minas Gerais.

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