São Paulo, 20 (AE) - Quando subiu ao palco na qualidade de crooner, pela primeira vez, no comecinho dos anos 60, no Automóvel Clube de Três Pontas, Milton Nascimento deu início à apresentação cantando "Promessa", de Custódio Mesquita e Evaldo Rui. Era música do repertório romântico de uma das maiores cantoras da música brasileira, faixa do disco "Quando os Maestros se Encontram" com ¶ngela Maria. A música deveria estar no repertório do CD "Crooner", em que Milton faz viagem de volta aos velhos - e, acha ele, ótimos - tempos de cantor de baile.
Por um motivo e outro, "Promessa" ficou de fora do disco. Mas é a música que abre o show "Crooner", que estréia quinta-feira, no Palace, em São Paulo, para temporada de três semanas, sempre de quinta a domingo (até o dia 8 de agosto). "Show, não", contesta o crooner. "Prefiro chamar de baile, pois foi pensado para que o público dançasse". Um show-baile, portanto. Nos moldes clássicos: luzes brilhantes, rodando sobre a pista cercada de mesas. Num programa de televisão, há pouco tempo, o apresentador pediu a Milton Nascimento que cantasse alguma coisa do tempo em que era crooner de grupos e orquestras de baile em clubes e casas noturnas - desde sempre acompanhado pelo amigo de infância Wagner Tiso, cantou primeiro em Três Pontas, no interior de Minas Gerais, cidade onde foi criado, depois em Belo Horizonte.
Milton cantou o bolero "Frenesi", depois a balada "Only You", depois o bolero "Besame Mucho" (numa imitação improvisada do arranjo de Ray Conniff), números obrigatórios em todos os bailes que animou. Quando saíram do programa, Milton e sua produtora, Marilene Godim, trocaram um olhar de - eureca! "É isso aí, vamos fazer esse disco", disse Milton. Um disco que não estava nos planos. Deu vontade, naquele momento.
O segundo passo foi ligar para Wagner Tiso, que encampou imediatamente a idéia, ou melhor: vibrou, pulou de alegria com a idéia. Era também sua viagem de volta aos velhos tempos, ao início da vida de músico, à origem mambembe - os dois saíram da pequena Três Pontas para a capital levando no bolso apenas a coragem (embalada na certeza do talento, naturalmente, mas era uma aventura).
Milton, Marilene, Wagner e a equipe da gravadora WEA começaram a garimpar o repertório. Chegaram a 200 músicas que não poderiam estar de fora do disco, de jeito nenhum. "Infelizmente, nossa tecnologia não permite ainda um disco com 200 músicas", o cantor lamenta, meio de brincadeira, meio a sério. Foram obrigados a fazer a seleção. Chegaram, com muito sofrimento ("Não quero passar por isso de novo", diz Milton) aos 15 títulos do CD "Crooner".
A seleção tem três momentos nítidos: de um lado, as tais canções que não podem faltar em um bom e verdadeiro baile, com cantor e orquestra: "Only You" (Buck Ram e Ande Rand), "Frenesi" (Alberto Domingues), "Aqueles Olhos Verdes" (Nilon Menendez e Adolfo Utrera, em versão de João de Barro); no outro extremo, as canções que formaram o músico Milton Nascimento e seu companheiro Wagner Tiso: "Lágrima Flor" (Billy Blanco), "Lamento no Morro" (Tom Jobim e Vinícius de Morais), "Se Alguém Telefonar" (Jair Amorim e Alcir Pires Vermelho), "Mas que Nada" (Jorge Ben).
Entre um grupo de canções e outro, as novas que o crooner escolheria para cantar, se ainda estivesse no ofício: "Resposta" (Samuel Rosa e Nando Reis), Não Sei Dançar (Alvin L.), "Certas Coisas" (Lulu Santos e Nelson Motta). Eclético é o repertório do crooner, por definição. No show-baile, às 15 canções do disco somam-se outras 12, uma delas um número orquestral - e Milton estará sendo acompanhado por uma grande banda, com ênfase nos metais, formada por Túlio Mourão e Kiko Continentino (piano e teclados), Lincoln Cheib (bateria), Luís Alves (contrabaixo), Marco Lobo (percussão), Paulo Guimarães (sax alto e flauta), Dudu Caribé (guitarra), Flávio Mello (trompete), Jacques Ghesstem (trombone) e Alexandre Lelei (sax alto).
Nos backing vocals - são indispensáveis as vozes de apoio - estarão Suzana Bello e Beth Bruno. Os arranjos são todos de Wagner Tiso, que deverá aparecer para dar uma canja em alguma noite. "Crooner", o show, estreou no Rio de Janeiro e teve muitas canjas - do conjunto Os Cariocas, do cantor, flautista e contrabaixista Beteto, que integrava a formação original do Tamba Trio (o arranjo de Wagner para Mas Que Nada, de Jorge Ben, cita claramente o arranjo original que Luís Eça escreveu para o Tamba), do compositor Billy Blanco, autor de "Lágrima Flor", a cantora mineira Simone Guimarães. Além da participação de Wagner
naturalmente.
Uma palavra sobre Simone Guimarães, cantora nova, mineira, ainda desconhecida: "Ela é o máximo, eu vou mexer com ela, eu vou fazer alguma coisa por ela, vou ajudá-la como puder", entusiasma-se Milton. De fato, Simone Guimarães é um desses talentos novos que não têm tido chance de chegar ao grande público, cantora de voz precisa, afinadíssima, cultora da melhor música - nada de mistura de pop com trip hop, essas coisas da moda, mas música mesmo.
A temporada paulista terá participações especiais, também, mas os nomes são mantidos em segredo. É para ser surpresa. "Gente que canta na noite", Milton diz, apenas. Só pede uma coisa: "Eu quero Elza Soares no palco comigo" - mas não conseguiu falar com a cantora. "Ela foi assistir ao show no Canecão, no Rio, mas não me procurou e quando eu soube que ela estava lá, ela já não estava mais". Quem sabe agora?
O show-baile "Crooner" está sendo um sucesso do qual muita gente duvidava. Milton ouviu coisas assim: "Não vai dar certo, ninguém mais dança música romântica". No entanto, no Canecão, bastava que os primeiros acordes soassem para que a pista ficasse cheia. No Palace deve acontecer o mesmo. E nas outras capitais - a turnê inclui temporada na Europa, em novembro. Milton gostaria de ter, além dos metais, cordas, na orquestra. Mas é difícil, hoje, montar orquestras completas. Ele acredita que elas voltarão a existir quando forem reabertos os cassinos, coisa que defende: "Todas as casas de espetáculo do País estão preparadas para virar cassino, é só a lei mudar". Serviço - Milton Nascimento. Quinta, às 21h30; sexta e sábado, às 22 horas; domingo, às 20 horas. De R$ 30,00 a R$ 65,00. Palace. Alameda dos Jamaris, 213, tel. 5051-4900. Até 8/8.

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