LEITURA Atualizado em 31/12/2019, 09:47
Milton Hatoum fala das faces da opressão
'Pontos de Fuga' aponta similaridades entre o autoritarismo de Estado e o autoritarismo familiar
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de dezembro de 2019
'Pontos de Fuga' aponta similaridades entre o autoritarismo de Estado e o autoritarismo familiar
Marcos Losnak 
“Nunca ousei ser um radical na juventude, pois temia que isso me fizesse um conservador na velhice.” Esta lendária frase do poeta norte-americano Robert Frost (1874 – 1963) oferece múltiplas leituras. Pode também sugerir uma das fatalidades da existência: a juventude estaria sempre fadada à rebeldia e a velhice sempre fadada ao conservadorismo.
A juventude possui como destino mergulhar na rebeldia e na radicalidade porque ela é capaz de viver coisas que a velhice não tem a capacidade de viver. E essa capacidade dos jovens está totalmente atrelada à busca pelo sentido da própria existência.
O escritor amazonense Milton Hatoum idealizou a trilogia “O Lugar Mais Sombrio” para retratar a juventude da geração que conviveu com a ditadura militar a partir de 1964. Um período que não apenas deixou profundas marcas no país, mas principalmente deixou marcas nos jovens que viveram suas consequências. O primeiro volume da trilogia, “A Noite da Espera”, foi publicado em 2017. Agora a editora Companhia das Letras está lançando “Pontos de Fuga”, o segundo volume. O terceiro volume deve chegar às livrarias em 2021.
Em “Pontos de Fuga” o personagem Martim abandona o curso na Universidade de Brasília e parte para São Paulo estudar arquitetura na Universidade de São Paulo. Na cidade ingressa numa típica república de jovens estudantes onde cada membro, cada um ao seu modo, vive sob a opressão do Estado e a opressão da família.
As personagens de “Pontos de Fuga” não lutam contra a ditadura militar para derrubar um regime totalitário com o objetivo de implementar o comunismo no Brasil. Também não são militantes de uma possível revolução, não são filiados a nenhum grupo político, não pertencem a nenhuma facção de esquerda. São apenas jovens lutando para viver com liberdade num país democrático. Jovens procurando entender as relações amorosas e seus fantasmas interiores.

Milton Hatoum: “A falta de afeto, respeito e compreensão numa família é a miniatura de um Estado repressor dentro de casa”
Quando são presos e torturados pela repressão militar, entram em contato com um tipo de violência inimaginável. Trombam com a brutalidade do Estado e saem com o corpo em destroços e com alma praticamente morta.
“Pontos de Fuga” procura traçar um panorama de como essa geração foi formada, em que se agarrou quando precisou deixar a juventude para entrar na idade adulta. A luta não residia apenas contra a opressão do Estado, mas também a opressão familiar: “A tirania familiar pode ser tão destruidora e nociva quanto a ferocidade do Estado. A falta de afeto, respeito e compreensão numa família é a miniatura de um Estado repressor dentro de casa.”
Sem ordem cronológica, o romance compreende acontecimentos de 1973 a 1980. A narrativa é formada por escritos de várias personagens. Várias vozes que apresentam um olhar individualizado sobre brutalidades e afetividades.
Nascido na cidade de Manaus, em 1952, Milton Hatoum é um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea. Formado em arquitetura, é autor de “Relato de um Certo Oriente” (1989), “Dois Irmãos” (2000), “Cinza do Norte” (2005) e “Órfãos do Eldorado” (2008). Ganhador de vários prêmios literários, seus romances foram publicados em 14 países.

Serviço:
“Pontos de Fuga” – Segundo volume de “O Lugar Mais Sombrio”
Autor – Milton Hatoum
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 312
Quanto – R$ 49,90


