Milton Nascimento anda vivendo um paradoxo: faz há mais de três anos a maior turnê de sua carreira, já tendo cantado em lugares como Hong Kong e Finlândia, e diz nunca ter ido tanto a Três Pontas desde que deixou, nos anos 60, a pequena cidade mineira onde cresceu. Os pólos do paradoxo se unem em dois lançamentos.
  No DVD ‘‘Pietᒒ, ele registra o show homônimo e apresenta, nos extras, os Meninos de Três Pontas, jovens que descobriu no ano passado e com quem quer fazer seu próximo disco.
  Na biografia ‘‘Travessia - A Vida de Milton Nascimento’’, a jornalista trespontana Maria Dolores relata em detalhes a infância e a adolescência do cantor e acompanha os caminhos que o fizeram se tornar um nome internacional. ‘‘Todo mundo diz que eu não falo nada, mas a Maria conseguiu extrair. Quem é honesto recebe sempre coisas boas’’, diz Milton, 64, cuja família é próxima da de Dolores, 28.
  Biógrafa e biografado garantem que nada foi censurado, ainda que ele tenha feito uma revisão final nos originais. ‘‘Achei muito boa a história da infância, entrevistei o pai do Milton e resolvi contar essa parte da vida dele, que pouca gente conhece’’, diz Dolores.
  Milton nasceu no Rio, filho da doméstica Maria do Carmo. O pai não assumiu a função, e a mãe morreu de tuberculose dois anos depois do parto. O menino, que chegou a ser levado para a casa da avó materna em Juiz de Fora, acabou criado em Três Pontas por Lília, da família para a qual Maria do Carmo trabalhava, e seu marido, Josino Campos.
  Só aos 45 anos o cantor legalizou sua adoção, mas foi criado como filho pelo casal, que lutou contra o preconceito racial para que Milton tivesse uma ótima educação. Foi Lília – a homenageada de ‘‘Pietᒒ– quem inventou o apelido Bituca, por causa das caras feias que o menino fazia. Josino está vivo.
  O livro aborda também na questão do filho Pablo, que nasceu em 1972, fruto do relacionamento com Káritas, socialite paulistana. Milton conta no livro que as ameaças do regime militar o obrigaram, por segurança, a se afastar do filho, com quem não retomou o contato.
  A paixão platônica por Elis Regina, o alcoolismo nos anos 70, as agruras financeiras, a proximidade da morte por causa da diabetes e o desejo de deixar a carreira nos anos 90 são outros temas do livro.Para 2007, além de um trabalho com o coreógrafo norte-americano David Parsons, Milton espera melhoras políticas. ‘‘A reeleição é uma chance que o Lula tem de tirar essa mancha que está sobre todos nós e fazer um negócio que o povo brasileiro mereça. Tenho esperança, mas por enquanto é só’’, afirma.

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