Um rico trabalho fotográfico, que permaneceu guardado durante três anos, saiu da gaveta e irá, a partir de hoje, às paredes do Bar e Espaço Cultural Beto Batata, em Curitiba. Uma coletânea de 20 imagens, captadas pelas lentes da fotógrafa curitibana Milla Jung, ganhou o nome de ‘‘Homens de Areia’’ e se transformou em exposição.
Milla registrou um pouco da rotina de uma comunidade seminômade de pescadores que vive entre as dunas na região dos Lençóis Maranhenses. ‘‘Foi a primeira vez que vi no Brasil pessoas que não tinham nenhum contato com a nossa realidade. Me encantei com eles e com essa idéia de paraíso perdido’’, diz.
Com 26 anos de idade, Milla dedicou 12 à fotografia. Formada em Jornalismo pela PUC-PR, concluiu especialização em Documentação Fotográfica no Centro Internacional de Fotografia de Nova York. Milla levou a exposição, há dois anos, para os Estados Unidos onde mostrou a algumas pessoas.
‘‘Fiquei preocupada pois os americanos achavam que aquela era a realidade brasileira’’, conta. ‘‘Tive que explicar que era uma comunidade isolada, longe da civilização’’. Isso teria feito com que ela pensasse muito sobre a responsabilidade dos fotógrafos e o cuidado que se deve ter com a contextualização das imagens que fazem.
Por isso, todas as suas exposições vêm acompanhadas de textos explicativos, com o objetivo de trazer o espectador para dentro do ambiente retratado pelas imagens, criando uma atmosfera adequada.
No caso da mostra ‘‘Homens de Areia’’, o ambiente é uma tribo de descendentes dos índios Caetés. Os integrantes da comunidade passam metade do ano em cabanas à beira-mar, praticando pesca de subsistência e tecendo redes. Na outra metade, eles migram para o interior, quando trabalham em olarias. Milla captou o primeiro momento.
Foram três semanas de convívio direto com o povo. ‘‘O mais interessante é que eles realmente não fazem parte do nosso mundo’’, comenta a fotógrafa. Talvez o único traço em comum com a restante da sociedade seja o hábito de assistir às novelas de televisão.
Embora não haja luz elétrica, a comunidade se reúne em torno de uma televisão movida a gerador, nos horários das principais novelas. ‘‘Achei incrível quando comecei a ouvir as mulheres chamarem seus filhos por nomes como Tony Ramos ou Jerry Adriani’’, comenta Milla. ‘‘Eles não têm sofás ou camas nas cabanas, mas vêem esses móveis nas novelas e sabem que existe outra realidade’’, diz a fotógrafa.
E é atrás dessa realidade que a maioria dos jovens da comunidade parte, deixando para trás os familiares. ‘‘Gostaria muito de fazer a segunda parte do meu trabalho, fotografando essa migração’’, comenta Milla.
Ela diz imaginar que a decepção dos jovens seja tão grande ao não encontrar o universo televisivo na realidade, que eles acabam nunca voltando para contar isso aos seus familiares. ‘‘Por sua vez, os pais e irmãos ficam achando que eles realmente encontraram o ‘mundo das novelas’, fora da comunidade’’, explica.
Enquanto não inicia esse novo trabalho, Milla se dedica a um outro projeto, que começou há dois anos. Com o apoio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, ela coleta imagens para a mostra ‘‘Pataxós, os Últimos Descendentes’’, no Sul da Bahia. O trabalho questiona a realidade dos 500 anos do Brasil.
• A exposição ‘‘Homens de Areia’’ da fotógrafa Milla Jung, poderá ser vista até 31 de julho, no Beto Batata (Rua Professor Brandão, 678). Hoje à noite, durante a abertura da mostra, haverá o lançamento de um livro de postais com as imagens das fotos, que estará à venda na livraria do bar por R$ 3,00. Mais informações pelo telefone (41) 262-0840.

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