Milagres em tom de humor
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de março de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba Só um milagre pode conferir ao Ópera de Arame o título de ''espaço ideal'' para apresentação de espetáculos. A intervenção divina ainda que dos deuses do teatro é esperada hoje, na abertura da 12 edição do Festival de Teatro de Curitiba. A Fraternal Companhia de Arte e Malas-Arte abre o evento com o ''Auto da Paixão e da Alegria'', que aborda os milagres de Cristo com uma interpretação bastante peculiar. A companhia paulista concebeu o espetáculo para palco italiano e já conhece a fama da dificuldade, principalmente acústica, do Ópera. Ainda assim, está animada com a responsabilidade de abrir, às 21 horas, o maior evento teatral do País.
A companhia paulista chegou ontem na cidade para participar pela primeira vez do festival. O evento vai até o dia 30, com cerca de 200 peças na grade de programação. O convite para a Fraternal abrir o festival surgiu no final do ano passado, numa época em que o grupo começa a dar os primeiros passos em busca de reconhecimento nacional.
A Fraternal completa uma década de formação este ano e nesse período vem desenvolvendo um trabalho de pesquisa calcado nas comédias populares. Há um ano e meio assumiu o Teatro Paulo Eiró, em São Paulo, onde pôde dar vazão aos seus projetos de pesquisa que inclui principalmente os autos. ''Quando a gente começou no teatro, dentro do projeto Cidadania em Cena, tinha cinco, seis pessoas na platéia. Hoje tem umas 300 pessoas'', comemora um dos integrantes da companhia Aiman Hammoud.
''O Auto da Paixão'' é a terceira peça que a Fraternal apresenta no teatro paulista. O espetáculo já foi indicado para seis prêmios, o mais recente para o Prêmio Shell 2002 de Melhor Autor. Escrito por Luis Alberto de Abreu, o espetáculo tem direção de Ednaldo Freire e traz no elenco, além de Hammoud, Edgar Campos, Mirtes Nogueira e Luti Angelelli. Eles vivem quatro saltimbancos que contam os acontecimentos bíblicos, mas também se multiplicam em 20 personagens.
''Os personagens recontam a história de uma forma cômica, hilariante. A peça resgata a figura do contador de histórias que está se perdendo no Brasil'', define Hammound. Três dos saltimbancos Amoz (Edgar Campos); Benecasta (Mirtes Nogueira) e Abu (Aiman Hammoud) são pretensamente descendentes longínquos de testemunhas oculares da passagem de Cristo no mundo.
O quarto saltimbanco, Wéllington (Luti Angelelli), é um paraibano que, embora não tenha ancestrais que conviveram com Cristo, conhece inúmeras histórias orais transmitidas pela tradição popular, como a da expulsão de Cristo do Ceará; as andanças da sagrada família pelo sertão brasileiro, quando se perdeu na fuga para o Egito; os milagres não-canônicos e acontecimentos apócrifos, como a presença do Apóstolo Tomé na Bahia e a época em que Cristo foi negro.
''Ele reiventa a história a partir do pouco que ele conhece'', explica Hammound.
A peça tem trilha sonora original, composta por Luiz Carlos Bahia. Está em turnê atualmente num projeto do Sesi. Em São Paulo retorna em cartaz de 30 a 20 de abril, mas ao final da apresentação de hoje, em Curitiba, já volta para capital paulista. ''É uma pena que não vamos poder ficar para o festival. O evento é um dos movimentos mais importantes de teatro no País'', considera Hammound. Ele não esconde, no entanto, o temor de estrear um espetáculo em um espaço considerado por muitos inadequado para o teatro. ''Esse é um espetáculo de texto e de ator. Se você não consegue ouvir a peça, não consegue entender'', diz.
Mas já é tradição que o Ópera de Arame, que passa a maior parte do ano fechado, empreste suas grades de ferro para a abertura do festival. Este ano, apenas a peça de abertura acontece no local, o restante está dividido em mais de 40 espaços que vão abrigar os espetáculos do Fringe (mostra paralela) e da Mostra Contemporânea.
Ontem, a organização do festival já comemorava o interesse do público pela compra dos ingressos, apesar de uma marcação publicitária bem mais tímida do que em outros anos. Duas peças ''Fausto'' e ''Memorial do Convento'' já estavam com lotação esgotada. A mais procurada até ontem era a peça ''A Prova'', que já registrava 1,7 mil ingressos vendidos para duas sessões no Guairão. ''As Nuvens e/ou um Deus Chamado Desejo'', da Cia Parlapatões, Patifes e Paspalhões e ''João And Maria'', da Cia Senhas de Teatro, única companhia curitibana que está participando da Mostra Contemporânea do FTC, já tiveram mais de 80% dos ingressos vendidos.
Algumas boas peças, como ''Longa Jornada Noite Adentro'', não estão sendo procuradas por conta da falta de divulgação. O espetáculo, dirigido por Naum Alves de Souza, não entrou no guia de programação do festival e pouca gente sabe da peça, que tem apresentação nos dias 26 e 27. Outra mudança na grade ficou por conta dos dias de apresentação da peça ''Os Sete Afluentes do Rio Ota''. A peça mais longa do evento, com cinco horas de duração, foi transferida para os dias 25 e 26.
Uma lista de espera no quiosque do Shopping Mueller, onde os ingressos estão sendo vendidos, é a esperança para quem deixou para comprar o bilhete na última hora e a peça escolhida já está com lotação esgotada. Em caso de sessão extra, os interessados serão avisados.
SERVIÇO:
Abertura do 12º Festival de Teatro de Curitiba, hoje, às 21 horas, no Ópera de Arame (Rua João Gava s/n), com o espetáculo ''O Auto da Paixão e da Alegria''. Ingressos a R$ 20,00 e R$ 10,00. O FTC vai até o dia 30 de março.
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