Os pequenos milagres só não existem porque não são vistos, mas se alguém os percebe se multiplicam em histórias fabulosas pela imposição das mãos de grandes diretores e elencos, como Paulo de Moares e o Grupo Galpão, de Belo Horizonte (MG).
É essa capacidade de acreditar numa realidade que existe no imaginário de audaciosos, como Moraes, e o desprendimento da própria trajetória ao oferecer-se como os pães e peixes para o diretor realizar a milagrosa arte teatral, transformando histórias simples no espetáculo ''Pequenos Milagres'', que o Galpão chega aos 25 anos.
O Festival Internacional de Londrina (FILO) está no circuito de comemorações. A peça estréia hoje, às 20h30, no Teatro Ouro Verde, com reapresentação amanhã. Os ingressos estão esgotados. Durante o período em que esteve em companhia do Galpão, Moraes transfigurou na frente do elenco o que queria na cena.
''Moraes veio com uma visão pronta, como um todo. Ele dá para o ator o espaço, o cenário, um texto para a gente falar, uma trilha sonora. A hora em que o ator é jogado na cena, vamos combinar, que não é possível não fazer nada com tudo isso na mão'', afirma a atriz Lydia Del Picchia.
O escritor norte-americano Paul Auster soprou no ouvido do diretor, o roteiro de partida para mais essa viagem no livro ''Pensei que meu pai era Deus''. Na obra, um personagem teria sido convidado para contar histórias num programa de rádio.
Ao esgotar o estoque, a mulher dele sugeriu que pedisse aos ouvintes que enviassem alguns casos. Com a idéia emprestada, o grupo colocou no ar a campanha ''Conte a sua História', recebendo mais de 600 textos por cartas e e-mails. Quatro foram selecionados.
Entre os escolhidos, o texto ''Cabeça de Cachorro'', de João Celso dos Santos, conta a história de um menino do interior, que tem que enfrentar um desafio que o pai lhe impõe.
O outro é ''Pracinha da FEB'', enviado por Thereza Alvarenga, falando sobre um velho expedicionário. ''Vestido do Desejo'' foi enviado por Maristela de Fátima Carneiro, contando a história de uma mulher que se apaixonou por um vestido que viu numa procissão. ''Casal Náufrago'' é sobre uma relação desgastada.
O cartunista Will Eisner (1917-2005) acompanha Moraes de outras encenações e, dele, é o livro ''Pequenos Milagres'', que dá nome à peça, e o ritmo grandiloquente e cinematográfico de contar do diretor.
A poesia da dramaturgia de Moraes e do também londrinense, Maurício Arruda Mendonça, foram levadas aos exercícios do elenco e retornaram mais fortalecidas pelo robusto corpo de atores do Galpão.
''O diretor lançou mão da qualidade do grupo. Muitas coisas que a gente sugeriu dá para a gente se reconhecer. O Paulo, além de tudo tem uma visão clara, objetiva do que quer em cena'', destaca o ator Antonio Edson.
Ao completar 25 anos, o Galpão deverá lançar, com patricínio da Petrobras, um livro com 45 histórias do ''Conte a sua História'', além de DVDs, entre os quais o da adaptação da peça ''A Rua da Amargura'', que se transformou no especial ''A Paixão Segundo Ouro Preto'', da Rede Globo.
Em ''Pequenos Milagres'', o Galpão, que se tornou referência do teatro de rua, faz o caminho inverso, levando o público para dentro do teatro e uma dramaturgia que transforma as pequenas coisas num grande milagre.

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