MIL PÁGINAS DE POESIA
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de abril de 2001
Nelson Sato De Londrina 
Muitas revistas de poesia circulam à margem de flashes, câmeras e microfones. Poucas, porém, conseguem manter o equilíbrio entre qualidade, periodicidade e longevidade. A revista Inimigo Rumor, publicada pela editora carioca 7 Letras, consegue a proeza de chegar ao décimo número em seu quinto ano de vida.
A edição será lançada no próximo mês, no Rio de Janeiro, durante a Bienal Internacional do Livro e no seminário Vozes Femininas a ser realizado na casa Rui Barbosa. A revista vai alcançar mil páginas de poesia festeja o editor e poeta Carlito Azevedo, explicando que cada número é rodado com 100 páginas.
O volume comemorativo apresenta um dossiê especial sobre a produção poética feminina contemporânea incluindo dois textos inéditos da poeta Ana Cristina César (1952-1983). Traz também trabalhos de poetas de Portugal, França, Argentina, Brasil, Estados Unidos e Alemanha. Reúne ainda ensaios dedicados à análise de duas poetas específicas: a portuguesa Adília Lopes e a brasileira Ana Cristina César.
Inimigo Rumor chegou às mãos dos leitores pela primeira vez em abril de 1997 trazendo textos de ilustres como Haroldo de Campos, Armando Freitas Filho, Sebastião Uchoa Leite, João Cabral de Melo Neto, Paul Valéry e Michel Butor. A terceira edição trouxe um dossiê sobre a obra de Ferreira Gullar. O número 5 destacou traduções de Apollinaire e Gertrude Stein.
A oitava edição homenageou o poeta e letrista Antônio Carlos de Brito, o Cacaso, morto em 1987, além de trazer traduções de John Keats, Willian Carlos Willians, Wallace Stevens, Michael A. Bernstein e Ossip Mandestan. Já a nona edição trouxe uma antologia da nova poesia portuguesa destacando nomes como Adília Lopes, Al Berto, Luís Miguel Nava, Luís Quintais e Rui Pires Cabral. Poetas novos brasileiros como Heitor Ferraz, Julio Castañon e Marcos Siscar também passaram por suas páginas. Confira a seguir a entrevista com Carlito Azevedo, editor e poeta da Inimigo Rumor
Vocês vão festejar o fato da Inimigo Rumor chegar à décima edição?
Vamos fazer dois lançamento da revista: um durante a Bienal Internacional do Livro e outro no último dia do seminário Vozes Femininas, que eu e a Flora Sussekind estamos organizando para os dias 23, 24, 25 e 26 de maio na Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.
Você considera uma proeza alcançar esse número?
Estamos no quinto ano da revista. Atingimos 1000 páginas de poesia, já que cada número traz 100 páginas. É um feito raro num mercado que se coloca avesso ao gênero. Mas é bom lembrar que essa longevidade deve-se em grande parte a seu vínculo com a editora Sete Letras. É ela que edita a revista e garante sua periodicidade, diferente de grande parte das publicações, que são feitas por poetas que se reúnem e resolvem montar uma cooperativa nem sempre estável.
Em termos de conteúdo, o que diferencia a Inimigo Rumor das demais publicações brasileiras dedicadas à poesia?
As revistas de poesia em geral tendem a privilegiar determinadas vertentes. Os modernistas do início do século fizeram a Revista de Antropofagia e a Klaxon. Os concretistas dos anos 50 editavam a Noigrandes. E os poetas marginais dos anos 70 contavam com suas publicações independentes. Todas essas revistas tinham como característica comum o fato de serem porta-vozes de um determinado movimento. Não é o caso da Inimigo Rumor, cujo critério é a qualidade dentro da multiplicidade.
Nisso, ela é um sintoma do estágio atual da poesia, que não se pautaria por um caminho estético?
Ela não segue nenhuma ortodoxia, refletindo esse momento de ausência de uma tendência hegemônica. O que não quer dizer que vou publicar de tudo. Não confundo pluralismo com vale-tudo. Não publico, por exemplo, uma certa corrente beletrista que procura resgatar o soneto em moldes clássico, sem o viés crítico ou irônico de um Glauco Mattoso.
Você consegue traçar um perfil do leitor da revista?
Não tenho um perfil. É difícil saber. E isso é até bom, porque deixo de ser influenciado por expectativas do público. Se cai na minha mão textos de um poeta russo do início do século 20, não vou fazer uma pesquisa de mercado para saber se o leitor vai ou não apreciar a obra dele. Cada número da revista é um dado lançado ao acaso. Não espero aceitação imediata. As influências muitas vezes acontecem de forma lenta, segura e indireta. Poucos conheciam a poesia concreta, mas conheciam a Tropicália, que era totalmente influenciada por ela. Poucos conheciam a obra de Oswald de Andrade, mas conheciam as letras de Torquato Neto, que era influenciado por ele.
Por que a poesia é tão pouca lida?
Porque ela não é tranquilizadora. No mundo caótico em que vivemos, as pessoas querem segurança e estabilidade. Não é à toa que os livros de auto-ajuda vendem tanto. A poesia intranquiliza. Ela não fornece um sentido para a vida das pessoas. Pelo contrário: ela vai questionar a idéia de que as coisas têm algum sentido.
Para obter mais informações sobre a revista, acesse o site www.7letras.com.br. Ou pelo endereço: Rua Jardim Botânico, 674, sala 417, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Telefones para contatos: (21) 540.0037/ 540.0130.


