Mil estilhas cintilantes
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de junho de 1997
Ademir Fernandes Agência Estado 
Arquivo FolhaLeila Diniz: Censura é ridículo, não tem sentido nenhumHá 25 anos, no dia 14 de junho de 1972, um telegrama das agências internacionais de notícias chegava às redações dos jornais, anunciando mais um acidente aéreo, desta vez na Índia, com mais de cem mortos. Apesar da distância do local onde ocorreu o desastre, a notícia merecia destaque, é claro, mas não a ponto de se publicar uma lista de passageiros com nomes tão estranhos - praticamente todos da Índia ou de cidades vizinhas. Só que, entre tantos nomes diferentes dos brasileiros, os redatores de plantão que se dispuseram a ler a relação por simples curiosidade - ou intuição - encontraram o de Leila Roque Diniz. Algumas horas depois, veio a confirmação: entre as vítimas estava mesmo a mulher que chocou os conservadores nos anos 60 e desafiou a censura militar.
Leila, então com 27 anos, mulher do cineasta Ruy Guerra, havia participado de um festival de cinema em Adelaide, na Austrália, e viajava rumo a Nova Delhi, na Índia. Terminava, assim, a carreira de uma das atrizes mais polêmicas e mais queridas do mundo artístico brasileiro, que mexeu com tabus na tevê, no teatro e no cinema e marcou toda uma geração.
Quem tomar conhecimento, hoje, do comportamento e das declarações da atriz, não vai se surpreender porque muita coisa mudou, de lá para cá. Mas eram atitudes corajosas, num tempo de repressão, de censura. Já em 1987, quando foi lançado o filme Leila Diniz, a geração mais jovem reagiu com uma certa indiferença às posições da atriz em relação a temas como casamento, virgindade, amor livre, homossexualidade - tabus na época em que ela viveu.
A vida da atriz será lembrada pelo Canal GNT (tevê por assinatura), que vai apresentar a série Três Vezes Leila, dividida em três capítulos, em sua homenagem. A direção é de Denise Saraceni, com produção de Sérgio Motta Mello e roteiro final de Ruy Castro. Cada título da série foi tirado de um poema de Carlos Drummond de Andrade:
A Revelação da Vida - (quinta-feira, dia 25 de junho, às 23 horas; reprises na sexta, 27, às 9, 17 e 5h00 da madrugada de sexta para sábado) - O primeiro episódio lembra a Leila Diniz que deixou de ser professora para virar atriz. Na tevê, um de seus papéis de destaque foi na novela O Sheik de Agadir (ela fez também o Grande Teatro Tupi e o Teatrinho Trol). No cinema, marcou presença em Todas as Mulheres do Mundo. No teatro, arrancou suspiros e gargalhadas em Tem Banana na Banda. Claro, a banda era a de Ipanema, ponto de referência para uma turma irreverente que chocava os tradicionalistas da época com suas ousadias. Mas eram ousadias que, hoje, não conseguiriam chocar mais ninguém.
Sem Discurso nem Requerimento - (sexta, dia 27, às 23h00; sábado, 28, às 9, 16 e 4h00 da madrugada) - Destaque para a famosa entrevista ao semanário
Pasquim, que acabou levando o governo a instituir a censura prévia. Virgindade, fidelidade, homossexualidade e casamento eram assuntos abordados de forma polêmica pela atriz, sempre na contramão dos conceitos tradicionais. Mas a corajosa Leila era uma mulher à frente do seu tempo.
Mil Estilhas Cintilantes (sábado, 28, às 22h20; domingo, 29, às 8, 16 e 4h30 da madrugada) - Erasmo Carlos e Rita Lee cantaram a Leila Diniz amiga, mulher e mãe. Era um tempo em que, por conta das ousadias da atriz, que posou quase nua e também mostrava publicamente sua enorme barriga, às vésperas de dar à luz sua filha Janaína (que também se tornou atriz de tevê e assistente de direção do pai, o cineasta Ruy Guerra), uma gripe ganhou seu nome - era a gripe Leila Diniz porque, segundo se dizia na época, levava todo mundo pra cama. A série termina lembrando que a atriz voltava da Austrália, onde fora promover seu filme Mãos Vazias, num festival internacional.


