A entrevista que inaugurou na última quarta-feira a série de coletivas do Festival de Cannes tinha tudo para terminar morna como começou, depois de uma hora de perguntas e respostas pouco estimulantes. Afinal, o filme escolhido para a abertura oficial, o longo e mal resolvido ‘‘O Barbeiro da Sibéria’’, tinha entorpecido boa parte da imprensa que lotou o auditório Claude Debussy. Mas uma provocação de última hora, gerada por uma jornalista do diário italiano ‘‘La Republica’’, mexou primeiro com os brios nacionalistas de uma exaltada colega sérvia - devidamente paramentada com uma t-shirt com o mapa de seu país e o já emblemático alvo desenhado - e em seguida com o diretor russo Nikita Mikhalkov.
Quem acompanha mais de perto a carreira de Mikhalkov conhece a dimensão do humanismo que ele coloca em seus filmes. Dois exemplos recentes realizados nos anos 90, ‘‘Urga’’ e ‘‘O Sol Enganador’’, são bem o reflexo de uma postura sempre crítica - e por consequência independente - a partir de fatos que colocam o homem, qualquer ser humano, em situação de constrangimento, humilhação ou dependência diante (ou sob, seria mais correto) de semelhantes que manipulam, impõem, forçam e destroem.
Assim, nenhuma novidade no teor do ponto de vista, segundo ele, de caráter estritamente pessoal: ‘‘A Ação da Otan é um erro trágico de consequências irreparáveis.’’ No momento, e num local que gera inevitável ressonância mundial, essas palavras assumiram inequivocamente marcante conotação política.
Para Mikhalkov, nesta ‘‘guerra abstrata de vítimas concretas’’ não é possível medir a extensão dos danos, desde sempre irremediáveis. Para os Estados Unidos - e sem qualquer contestação da numerosíssima imprensa americana em Cannes - sobraram farpas elegantes mas letais. Sem exaltações ou rancores até justificáveis, caso fosse comunista recalcitrante - e quem viu e se recorda de ‘‘O Sol Enganador’’ - o cineasta foi na jugular ianque.
‘‘Os americanos jamais tiveram uma guerra em seu próprio território, sempre fizeram a guerra no quintal de terceiros, e longe de casa. Neste momento em que a velha teoria intervencionista de Truman é reciclada pela guerra ultramoderna, os pilotos de aviões americanos fazem essa guerra abstrata sem nada sentir. Apertam os botões e vão para longe. Mais tarde sentam diante dos videoteipes que eles mesmos produziram e concluem, sem emoção: ‘‘Errei o alvo...’’, ou ‘‘me enganei...’’
Uma pena que ‘‘O Barbeiro da Sibéria’’ não esteja artisticamente à altura deste Mikhlakov tão sincero e convincente em defesa da paz e do bem-estar do homem. Superco-produção entre Rússia e França, a um custo absolutamente explícito de US$ 25 milhões, o filme era um antigo projeto pessoal do próprio Nikita Sergeyevitch Mikhalkov-Konchalovsky (é irmão do cineasta Andrei Konchalovsky), uma velha idéia de construir um épico romântico sobre a Rússia da virada do século.
Nostálgico sem dúvida, ‘‘O Barbeiro da Sibéria’’ é uma exaltação dos valores da época czarista quando as coisas eram calmas, o país estava em ordem, o rublo era moeda forte, havia uma farta colheita de cereais, enfim, havia um país estável, com uma economia sempre em progresso. O que desanda no filme são várias coisas. A intenção tentada, de uma dramaturgia à moda operística, falha na ausência de um tom adequado, de um formato ideal que pudesse conter a um só tempo o lado bufo e a tragédia.
Longo em demasia, alterna momentos de inspiração com detalhes inconsequentes. A bela Julia Ormond não consegue impor ao personagem a carga de tragicidade requerida; menos por culpa sua do que de um roteiro que gostaria de conter o mundo nas mãos. Há influências literárias visíveis, intuídas e recônditas, de Tolstoi a Puchkine, passando por Tchecov. E também cinematográficas, de King Vidor a David Lean, passando pelos russos caudalosos e retumbantes. Um detalhe dá um tempero saboroso a este molho desandado: o humor, uma constante em Mikhalkov.
•Para a cobertura do Festival de Cannes, o jornalista Carlos Eduardo Lourenço Jorge conta com o apoio da Internet by Sercomtel.

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