São Paulo, 13 (AE) - A cidade de La Coruña, na Galícia, é mais conhecida pelo seu time de futebol, no qual se multiplicam ao longo do tempo os astros brasileiros: Mauro Silva
Bebeto, Djalminha. Mas é de lá também que vem a mais impressionante obra dos quadrinhos europeus contemporâneos: as histórias do espanhol Miguelanxo Prado.
A Galícia fica perto de Portugal e seus habitantes falam o galego, que tem semelhança impressionante com o português. Foi por causa dessa similaridade que o desenhista Miguelanxo Prado não teve grandes problemas quando desembarcou aqui, no mês passado, para a Bienal Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, da qual participou.
"A nossa língua tem a mesma estrutura gramatical e eu percebia melhor as coisas conversando com os brasileiros do que com os portugueses", diverte-se Prado, que falou com a reportagem por telefone, de sua casa em La Coruña. Ele não vive propriamente na cidade, mas numa chácara nas cercanias. A bienal acabou na semana passada, mas Prado, além de deixar os fãs boquiabertos com sua produção, deixou também uma muito boa impressão.
É a anti-estrela por excelência. Suas pranchas originais
despachadas da Espanha, não chegaram a tempo para a mostra. Prado, angustiado, perdeu os primeiros dias e noites no Brasil desenhando novas pranchas para a exposição na mostra de Minas Gerais.E veja-se que não é um trabalho fácil. Basta ver o que ele fez na sua adaptação de "Pedro e o Lobo, lançado aqui pela editora Meribérica/Líder. O autor espanhol praticamente dá um novo significado ao clássico rito de passagem que se transformou em conto e na música clássica de Sergei Prokofiev. O encontro de Pedro, o menino, com o famigerado e mítico lobo passa a ser o encontro do menino com o homem. O momento em que o menino deixa de ser menino e vira adulto.
"Pedro e o Lobo" é a única incursão do desenhista pelo território dos clássicos infantis. "Originalmente, o conto de Prokofiev continha uma proposta progressista, como era o fato, naquele tempo, de o lobo ficar, ao fim da história, num zoológico", disse Prado. Nos nossos dias, ele acrescentou, essa conclusão acabou perdendo toda a sua força e, por isso, ele decidiu revisar o fim para fazê-lo mais de acordo a proposta original. "Por inconsciência, ambição ou capricho, os animais e a natureza morrem e, em que pesem as boas intenções de quase todo mundo, no fim não fazemos nada ou quase nada", diz.
Quando era um garotinho, lembra Prado, a versão de Disney era a que prevalecia. "E Disney era Deus", diz. "Agora
depois de tanto tempo, gosto mais do meu bosque." Não que ele renegue o quadrinho mais popular - ele também prefere não alimentar a discussão "estéril" sobre se quadrinhos são ou não arte. "A essa altura do século, já deveríamos ter aprendido que arte é qualquer meio que nos permita uma expressão artística", considera.
Além de seus álbuns magníficos, que podem ser enquadrados naquela categoria de "quadrinho artístico europeu"
ele também trabalha na indústria. "Acabei de concluir minha colaboração na terceira etapa de "Homens de Preto (Men in Black)", revela. "Espero agora ter tempo para realizar um par de projetos de quadrinhos que ficaram adiados por muito tempo: um livro de comics intimistas e poéticos e o começo de uma trilogia que eu não saberia descrever assim, rapidamente", revela.
Para Miguelanxo Prado, os quadrinhos, assim como o cinema, como a música ou qualquer outro meio, podem não ser mais que uma forma de divertimento. "Mas estou convencido de que, para entender a história da arte no século 20, no futuro, serão tão imprescindíveis algumas tantas obras de quadrinhos quanto "Cidadão Kane", Picasso ou o Ulisses" de James Joyce.
Os quadrinhos europeus, embora com uma linguagem mais pessoal e elaborada, não desfrutam em países periféricos (como o Brasil) do mesmo prestígio que os quadrinhos americanos. É algo que se pode dizer também em relação ao cinema. "Acho que não é o mesmo falar de prestígio e de popularidade ou grandes vendas", ele pondera. "Os quadrinhos europeus, penso que estão onde devem estar", acrescenta. "Do mesmo jeito que Fellini ou Peter Greenaway não podem ir no mesmo saco que George Lucas."
Para ele, os quadrinhos de super-heróis e os comics americanos são "necessários", um tipo de produção que precisa de ou requer um grande público. "Anatemizar os produtos de grande consumo, nessa abordagem, seria uma hipocrisia", ele diz. "Eu, pessoalmente, não gosto, porém me parece estupendo que outras pessoas se divirtam com eles", completa.
Miguelanxo conta que começou a fazer quadrinhos meio tarde, quando já tinha 20 anos. "Naquele tempo eu tinha já uma formação plástica, como pintor, bem desenvolvida", lembra. "Admirei, quando descobri essa linguaguem, gente como Moebius, Sergio Toppi, José Muñoz... e tantos outros", diz, acrescentando que, de algum modo, esses artistas que citou acabaram influindo na sua forma de entender os quadrinhos.

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