O escritor e crítico Miguel Sanches Neto abre hoje o ciclo de palestras do ''Londrix/Festival Literário de Londrina''. Ele fala às 20h30 na Casa de Cultura da UEL (R. Mato Grosso, 537) sobre o tema ''O Romance Como Resumo de Todos os Gêneros''. A parte de shows destaca hoje a banda Chá de Chocalho, às 20h, no Teatro Ouro Verde. Os ingressos para os shows custam R$ 6. As outras atividades do Londrix têm entrada franca.
Sanches Neto é uma das figuras mais aguardadas pelo público no Londrix. Respeitado como crítico literário, também tem recebido elogios como escritor através de títulos como o volume de memórias ''Chove Sobre Minha Infância'' e a coletânea de poesias ''Venho de um País Obscuro''. Doutor em Letras pela Unicamp, é professor-adjunto da Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR), onde também é Pró-Reitor de Extensão e Assuntos Culturais. Confira abaixo a entrevista que ele concedeu à FOLHA por e-mail.
Depois de James Joyce e os experimentalismos de linguagem do século 20, ainda há espaço para inovações formais na prosa de ficção?
Toda ficção de qualidade é sempre experimental, ela experimenta formas específicas de linguagem para dizer aquilo que de outra maneira não seria possível. O romance contemporâneo continua ampliando os possíveis formais, não mais dentro da linhagem de outros tempos, mas dentro do nosso próprio tempo. Temos incorporado a prática trazida pela internet - a ausência de fronteiras. Na literatura isso é visto na ausência de fronteiras entre gêneros, entre estilos.
Que avaliação você faz da produção romanesca brasileira contemporânea? Que autores você destacaria?
Destacaria quatro grandes vertentes. O romance que dialoga com o romance histórico, sem repetir o velho modelo, usando uma linguagem contemporânea. Um Luiz Antônio de Assis Brasil seria um bom exemplo, mas existem outros autores, como uma Ana Miranda. O romance que dialoga com as memórias, fazendo uma misto de ficção e memorialismo, e o melhor exemplo talvez seja ''Quase-romance, quase-memória'', do Carlos Heitor Cony, ou ''A Mão Esquerda'', do Fausto Wolf - recentemente falecido. O romance que trabalha com o legado do romance policial, e aqui os dois exemplos são o Rubem Fonseca e o Marçal Aquino, mas pode ser também o Domingos Pellegrini de ''O Caso da Chácara Chão''. A última vertente, seria o romance meio ensaísmo, uma modalidade muito presente nos dias atuais, e no Bernardo de Carvalho um bom exemplo. Além disso, existem muitas variantes do romance, cada um com o seu melhor representante.
Há quem diga que a internet está alterando a percepção e os modos de recepção/concentração para leituras de maior fôlego. Como fica o romance nesse contexto?
A internet não gera leitores. Gera escritores. É o lado trágico da rede na vida cultural. Nós nos tornamos uma sociedade de emissores. Todos são escritores, porque a internet devolveu à humanidade a chance de se expressar pela escrita. A leitura na internet é algo superficial, não tem nada a ver com a leitura literária. O romance é uma forma literária muito maleável, e ele absorveu a lógica da internet, e continua sendo o centro do mundo literário. Não dá para ler prazerosamente um romance na rede, por isso ele não perdeu público com o advento da internet. Já o conto, a poesia e a crônica perderam.
Na condição de crítico literário, como você vê a prática de sua atividade no País. Há, como dizem alguns, muito compadrio nas resenhas?
Sou um ex-crítico literário. Deixei de fazer crítica assim que passei a circular nos encontros de literatura como escritor. Conheço hoje muitos escritores, não posso mais ter uma opinião isenta sobre eles. A crítica praticamente não existe no Brasil, o que existe é a resenha, ditada sim pela amizade, pela influência do autor e/ou da editora. A grande literatura contemporânea só vamos conhecê-la daqui a 50 anos, quando não existir mais o poder de influência de autores e seus editores. Os prêmios literários nascem na maioria das vezes destes equívocos contemporâneos entre presença na mídia e qualidade literária.
E como anda a crítica acadêmica, que sempre foi criticada por seu suposto hermetismo e também por supostamente ignorar a produção literária contemporânea em prol de estudos dos clássicos. Esse panorama mudou?
A universidade está mais próxima do autor, mais próxima da produção contemporânea. Isso melhorou, pelo menos em tese - sem trocadilho. Mas o ponto de partida do ensaio acadêmico é a teoria, o desejo de constituir um sistema interpretativo, e isso é algo que não tem muito a ver com literatura. Este me parece o mais problema da crítica universitária, que não vê a literatura como literatura. Para modificar isso, sou defensor da criação de cadeiras de redação criativa nos cursos universitários, tal como existe nos Estados Unidos.
Você iniciou este mês a publicação - em 8 capítulos - de uma novela no jornal literário Rascunho. Por que a escolha desse formato e qual o objetivo desse projeto?
É uma novela (''História do Fim do Mundo'') com linguagem experimental, em que tento condensar as experiências de fim de um tempo agrário, no qual os personagens viviam praticamente na idade média. Ela tem uma leitura mais densa, os parágrafos não possuem pontos finais, e isso torna a leitura um discurso contínuo. Seria um antifolhetim, por isso quis publicar em um formato folhetinesco. A idéia é explorar este espaço dos jornais para fazer literatura, mesmo quando não é uma literatura de fácil absorção. O objetivo último é forçar a recepção da literatura. Levar o texto para leitores já meio saturados da literatura, como é o caso do leitor de jornal literário.

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