São Paulo, 15 (AE) - Com a estréia, amanhã (16), de "Mifune", serão três os exemplares do Dogma 95 conhecidos pelos paulistanos. O filme de Soren Kragh-Jacobsen vem juntar-se a "Festa de Família", de Thomas Vinterberg, e a "Os Idiotas"
de Lars Von Trier, para formar uma boa amostragem desse cinema diferente. Ousado, barato, antenado nos conflitos da realidade social. Até agora, o público, ou pelo menos um segmento dele, tem aprovado a iniciativa dos signatários do Dogma.
O que eles propõem? Simplesmente a volta a uma espécie de estado de pureza original, anterior à parafernália técnica que nocauteou a criatividade e deixou o cinema, como arte, em estado de coma profundo. Mas o recado dos signatários do Dogma não se endereça apenas ao destinatário mais óbvio, o cinemão comercial norte-americano, dominante e afásico como nunca. Destina-se, também, a uma certa concepção burocrática de cinema europeu, falsamente intelectualizado, de uma "boa qualidade" duvidosa e muitas vezes tão estéril quanto seu concorrente norte-americano.
Von Trier e Vinterberg chamaram seus preceitos de "voto de castidade". São dez regras. Preconizam filmagens em locações naturais, câmera na mão ou no ombro, proibição de trilha sonora sobreposta na montagem, etc. Como qualquer tábua de leis, proíbe mais do que recomenda. Pode parecer artificial e já foi chamado de jogada de marketing dos diretores. O tema está aberto a discussão. Ao recursar os progressos técnicos da sua arte, o Dogma estaria sendo regressivo? Talvez, mas uma arte se define também por aquilo que evita.
O futebol proscreve o uso da mão, a não ser para o goleiro, gol impedido é anulado, etc. No vale-tudo, nada vale - essa é a lição. Além do mais, o Dogma passa na prova dos noves de qualquer proposta estética: os resultados dessas leis de ferro são mais do que razoáveis e têm sensibilizado cinéfilos avessos à acomodação. (Luiz Zanin Oricchio)

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