MÍDIA - Infância e adolescência em pauta
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de agosto de 2005
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
O desafio de enfocar cada vez mais os direitos da infância e da adolescência vem sendo colocado em prática pelos principais veículos da mídia impressa no País. Recentemente, a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi) divulgou o relatório ''Infância na Mídia 2003/2004'' que é fruto de uma extensa análise do comportamento editorial dos principais veículos da mídia impressa do País. Tendo como objeto de estudo 60 jornais de todas as regiões brasileiras e dez revistas de circulação nacional, a pesquisa revela dados obtidos a partir da metodologia específica pela Andi e conta com reflexões de especialistas de diversas áreas relacionadas ao universo infanto-juvenil e de jornalistas comprometidos com a cobertura da agenda social. Além desse material, a Andi também está divulgando o relatório ''A Mídia dos Jovens'', que tem como foco a produção editorial dos veículos dirigidos aos adolescentes e jovens do Brasil. As análises englobam os três últimos anos e convidam à reflexão sobre como a imprensa pode contribuir para a formação de uma juventude capaz de exercer de forma mais plena sua cidadania. Realizado pela Andi e pelo Instituto Votorantim, com apoio da Unicef e do Instituto Ayrton Senna, o estudo foi tema de discussão em seminário ocorrido em 20 e 21 de junho, em São Paulo, com a presença de jornalistas, especialistas, jovens protagonistas e outros atores sociais.
No contexo das sociedades contemporâneas, os meis de comunicação de massa desempenham papel central no que se refere ao agendamento do debate público, o que coloca uma imensa responsabilidade na mídia e também em toda sociedade, que também pode, e deve, balizar essas ações que objetivam o interesse coletivo.
Apesar da constatação de um parcela significativa dos meios de comunicação brasileiros terem uma antiga inclinação a práticas clientelistas, os estudos do relatório ''Infância na Mídia 2003/2004'' apontam que a mídia impressa, nos últimos anos, começa a dar um tratamento consistente às temáticas relacionadas aos direitos das crianças e adolescentes. Também registra sinais de uma abordagem sistêmica dos problemas nacionais, inspirada pela ótica do Desenvolvimento Humano (DH), na prática jornalística cotidiana. Portanto, uma cobertura mais plural e contextualizada.
Um das principais mudanças nas pautas percebidas pelo referente estudo foi a de que a chegada de Lula à Presidência impulsionou a imprensa a acompanhar as políticas sociais, aumentando consequentemente a cobertura focada no universo da infância e da adolescência. O relatório afirma que a ascensão de um partido como o PT, tradicionalmente inclinado aos interesses sociais, gerou ampla expectativa em torno de temas antes negligenciados, como fome e pobreza, para acompanhar a execução de Políticas Públicas sociais do novo governo. O estudo também aponta que o quadro mudou em 2004, segundo ano da gestão Lula, quando à expectativa de implementação dos programas oficiais se seguiu uma frustração da população e também da própria imprensa diante da ausência de efeitos práticos em larga escala. Mas a essa altura a mídia já estava, felizmente, influenciada por uma agenda que não se restringia aos ministérios da área econômica e ao Banco Central. Manteve, assim, o interesse em acompanhar ações do governo Lula na esfera social, ainda que para criticar essas ações, os sinais de inoperância ou cobrar resultados, como em relação ao Programa Fome Zero, por exemplo.
Dentro desse novo contexto, a cobertura de assuntos relacionados aos direitos das crianças e dos adolescentes foi claramente beneficiado. O monitoramento realizado anualmente pela Andi com 50 jornais diários demonstra um crescimento de 19,47% no número de matérias veiculadas, passando de 88.605, em 2002, para 105.853, em 2003. Comparando-se ainda esses 50 jornais, o aumento de 2003 para 2004 foi de 31,07%, sendo registradas 138.747 notícias. Se incluirmos os quatro jornais que começaram a ser monitorados em 2003, o total de notícias sobe para 115.148. Ao acrescentarmos os seis diários acompanhados a partir de 2004, o número pula para 159.693.
Por outro lado, a pesquisa concluiu que a abordagem ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) ainda está superficial e precisa aprimorar viés reflexivo. No campo da violência, embora o número de matérias tenha crescido de 2002 a 2004, a participação do assunto com relação ao total dos temas esteve em queda. Em 2002, tendo como referência 50 jornais pesquisados, a quantidade de matérias sobre violência subiu 9,17%, enquanto o total de textos sobre infância e adolescência registrou um crescimento da ordem de 19,47%. Já em 2004, o espaço para matérias sobre violência cresceu 17,24%, abaixo da evolução geral, que foi de 31,07%. Segundo a pesquisa, isso sinaliza que a imprensa pode estar desenvolvendo maior critério na abordagem das temáticas associadas ao fenômeno da violência.
Vale a pena destacar que o estudo também demonstra que as matérias sobre as temáticas referentes ao Abuso & Exploração Sexual avançaram rumo a uma abrodagem mais humana e sintonizada aos preceitos legais. Nos 60 jornais monitorados em 2004, foram registradas 4.847 notícias.
A pesquisa também aponta alguns dados preocupantes como o fato de que, em 2003, apenas 2,8% das matérias tratam do tema Pobreza e só 2,4% de questões relativas à desigualdade. Isso num país com características econômicas e sociais perversas, listado entre os cinco piores na distribuição de renda no planeta, que mantém um terço da população abaixo da linha de pobreza.
Como forma de melhorar a cobertura jornalística voltada a esse universo, o relatório sugere o aumento na diversidade de fontes consultadas para não colocar em risco a qualidade e mesmo a credibilidade da informação, deixando de destacar apenas a ''visão oficial'' fornecida pelo Poder Público. Especialistas, meninos e meninas entrevistados em ambiente escolar e representantes das famílias muitas vezes acabariam sendo negligenciados, apesar de serem importantes fontes de informação.


