Michaud segundo Neville D'Almeida
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de abril de 1998
Zeca Corrêa Leite 
Albari RosaNeville DAlmeida: Nossa intenção é fazer um filme para circular no mundo todoDá para acreditar? Neville DAlmeida, que se notabilizou dirigindo filmes onde o sexo explode em meio a dores e taras - é dele A Dama do Lotação, segunda maior bilheteria do cinema brasileiro, com 7 milhões de espectadores - prepara-se para rodar Liberdade. O filme contará a paixão de um europeu que troca a elegante Suíça pela beleza rude e exuberante da Mata Atlântica, na região de Paranaguá.
A história é real. O pintor William Michaud veio ao Brasil em 1848 (estava então com 19 anos); em 1854 aceita participar de uma iniciativa colonizadora nas ilhas do Superagui. Mal sabia que estava traçando para sempre seu destino: nesse local fincaria raízes, iria se apaixonar por uma jovem caiçara chamada Custódia e com ela teria sete filhos. Ao escrever para os parentes em Vevey, sua terra natal, produzia aquarelas. Foram muitas e hoje estão no museu da cidade.
Neville DAlmeida quer contar o entrelaçar de algumas vidas, a partir de Michaud. Outra figura importante a ser focalizada é Joshua Slocum, navegador americano, que teve seu navio Aquidneck - um grande veleiro de três mastros e 365 toneladas - encalhado nos baixos da baía de Paranaguá. Esse incidente levou os dois homens a se tornarem grandes amigos e o artista a retratar o barco em algumas de suas telas.
Empenhado em voltar para os Estados Unidos, levando junto a família, Slocum projeta um novo barco, de tipo oriental e com flutuadores de bambu. A embarcação é lançada às águas no dia 13 de maio de 1888. Em homenagem à Lei Áurea, ganha o nome de Liberdade. Deixa o Brasil a 24 de junho e menos de dois meses depois chega à costa norte-americana, vencendo 5.510 milhas.
O diretor imagina um filme que fale de um homem que deixa o branco da neve para mergulhar no verde das matas. Para ter as distintas paisagens contrastando-se nas cores, parte da fita será rodada na Suíça. Liberdade está orçado em R$ 6 milhões, que deverão ser levantados junto à iniciativa privada através da Lei Rouanet e da Lei do Audiovisual, segundo o diretor.
O produtor é Carlos Homero Camargo Ribas, paranaense proprietário da Magia Filmes, de São Paulo, que produziu Navalha na Carne, ano passado. Foi Ribas quem falou sobre o artista suíço para Neville. Isso aconteceu há dois anos e agora o projeto começa a tomar forma.
A nossa intenção é fazer um filme para circular no mundo todo, explica o diretor. Seus trabalhos anteriores foram vendidos para mais de 35 países, e este, especialmente, terá maiores oportunidades de ser distribuído no exterior porque contará com personagens da Europa e Estados Unidos. O elenco não foi definido, mas os atores serão de projeção mundial, avisa.
Neville DAlmeida está de olho nas festividades dos 500 anos e não economiza palavras ufanistas sobre seu trabalho, que ele considera da maior importância neste final de século. Depois de retratar a complexidade das relações, da descoberta do amor e de todos os conflitos humanos, dos labirintos da vida, mudou a rota. Hoje busco o caminho da afirmação da natureza.
A escolha pelo Paraná tem algo mais que a fidelidade ao local onde Michaud desembarcou. Aqui é o único lugar do Brasil onde existe uma parte da Mata Atlântica totalmente preservada e isso é maravilhoso. A região de Paranaguá, do Superagui, de Guaraqueçaba é um verdadeiro paraíso ecológico, diz o cineasta, que só conhece esses locais por imagens. Apesar disso quer contar a história do artista: Poucas pessoas sabem disso fora do Paraná; o mundo inteiro tem que saber.


