Em entrevista à Folha2, ator comenta sobre seu novo filme, que enfoca o aborto e pode gerar polêmica
France PresseDurante a semana, Michael Caine foi a Veneza e depois compareceu ao Festival de Deauville, na França, com sua mulher (foto)
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Veneza para a Folha2
O cabelo está curto, quase inteiramente branco. Os olhos são de peixe morto, como sempre. Camisa pólo marinho, calça escura, cerca de um metro e noventa de altura. Se ainda fosse louro, estivesse de óculos de tartaruga e usando terno e gravata, nenhuma dúvida: quem estaria entrando na Sala Luchino Visconti do Grand Hotel des Bains, em Veneza, seria o agente Harry Palmer de ‘‘Ipcress, Arquivo Confidencial’’, ou o playboy sem caráter de ‘‘Alfie’’, há quase quatro décadas os primeiros e importantes títulos da trajetória rumo à fama. Aos 66 anos, 80 filmes, bem disposto, em paz com a vida depois de períodos de turbulência, um bem-humorado Michael Caine falou à Folha2, esta semana, sobre carreira, família e seu personagem em ‘‘The Cider House Rules’’, filme de Lasse Hallstrom selecionado para o Festival de Veneza. ‘‘É um médico contraditório, dr. Larch, que dirige um orfanato, pratica o aborto em jovens com gravidez indesejada e ao mesmo tempo acolhe carinhosamente crianças órfãs’’. A seguir os principais trechos da entrevista.
Como foi interpretar um personagem francamente favorável ao aborto? O filme com certeza vai enfrentar problemas por causa dessa posição.
Não podia imaginar que na minha idade teria que trabalhar com o tema do aborto. Sempre pensei que o problema fosse somente das mulheres. A minha posição é a mesma do dr. Larch, que ama as crianças, não gostaria de praticar o aborto mas não vê alternativa quando solicitado. Creio que o aborto é um problema pessoal das mulheres, sobre o qual somente elas podem decidir, mas sem provocar a auto-intervenção. É provável que em dezembro, quando ‘‘The Cider House Rules’’ for lançado nos Estados Unidos, vai haver forte reação por parte do movimento Pro-Life. Mas acho que estamos preparados.
Por falar em idade, a quantas anda a carreira?
Não sou mais um workaholic, um obsessivo pelo trabalho. Disse adeus a muitas coisas, ao empenho excessivo, ao álcool e ao fumo. Mas não renuncio ao sexo e à boa mesa, isto jamais. Foi pelo prazer de comer bem, aliás, que além de ator hoje sou também empresário da gastronomia. Comecei como hobby, mas agora já sou dono de sete restaurantes em Londres e um em Miami. E os negócios vão bem, obrigado. Quanto aos projetos artísticos, depois de Veneza vou a convite para o Festival de Deauville, na França, e logo volto aos Estados Unidos. Vou fazer um Marquês De Sade velho e doente em ‘‘Quills’’, ao lado de Kate Winslet e Geofrey Rush, e um gângster movie livremente inspirado no ‘‘Rei Lear’’ de Shakespeare.
Você está em Veneza com a mulher, uma filha e o namorado dela, gênero família, sem badalações. Como é sua vida?
Sou cem por cento família, para mim a coisa mais importante. São valores que trago da minha própria família, sempre muito unida. Sou casado com a mesma mulher há 27 anos, tenho duas filhas a quem procurei ensinar que nas dificuldades é que estão as melhores lições de vida. Atualmente trabalho mais nos Estados Unidos, e depois de cerca de 30 filmes em Hollywood às vezes me considero um americano que fala um inglês estranho. Mas a minha casa de fato está em Londres.
Um detalhe que sempre chama a atenção em sua expressão, na criação de muitos de seus personagens, são seus olhos.
Quando comecei a atuar no cinema me disseram que a primeira coisa importante para impressionar era mover bem os olhos. Eu sabia, é claro, que os meus eram um pouco especiais, não com vida muito própria (risos). Assim, inventei um expediente muito pessoal: piscar o mínimo possível. Isto dá um ar sinistro, inquietante. Exatamente o contrário de Hugh Grant, que está continuamente piscando, como convém a seu ar de galã entre tímido e atrapalhado. Um objetivo que, de resto, jamais foi o meu.

mockup