Mia Couto nas margens da esperança
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Ubiratan Brasil <br> <br> Agência Estado 
São Paulo - País com infinitos problemas, Moçambique é fonte de inspiração de um de seus mais famosos autores, Mia Couto. Fiel na crença de que a palavra é um instrumento de sobrevivência, ele a utilizou com primor em Estórias Abensonhadas, livro de 1994 recém editado no Brasil pela Companhia das Letras.
O neologismo ''abensonhadas'' tem origens climáticas, como se percebe logo no primeiro conto da obra. Além da guerra, Moçambique teve de enfrentar a seca, o que agravou o problema da fome e a miséria. Segundo a crença popular, a vinda da chuva estava condicionada ao final dos conflitos, que assolaram o país.
A chegada da água, portanto, é sonhada e abençoada, ou ''abensonhada''. Com isso, o escritor reforça o acordo entre os acontecimentos e a sabedoria tradicional que marca sua obra. Sobre o assunto, Mia respondeu, por e-mail, às seguintes questões:
Os contos revelam o elo entre o velho e a criança, ou seja, o guardião das tradições e aquele que as perpetuará. Com o futuro incerto para muitos países como Moçambique, a esperança está na busca e no uso da imaginação?
Esse velho e a criança caminhando juntos é uma metáfora sobre a necessidade que o meu país tem de encontrar soluções de continuidade e compromissos entre o tempo nosso e o tempo do mundo, entre a modernidade e a tradição, entre a escrita e a oralidade. A imaginação é importante, sim. Mas a imaginação, num mundo em que a oralidade e a ruralidade ainda predominam, é algo que não é tão cerceado como nas sociedades da escrita, nas sociedades urbanizadas e industrializadas.
Você acredita, então, na possibilidade de, no futuro, tender a escrever mais sobre a criança?
Ninguém, em verdade, escreve ''sobre'' ou ''para'' a criança. Em convívio com as nossas várias identidades, existe um estado de infância que se preserva vivo e ativo e que nos ajuda a compor aquilo que chamamos de ''nós mesmos''. Ao escrever, eu sinto não um regresso mas uma espécie de permissão para que esse lado infantil me domine, me possua. É apenas isso, dar mão a essa racionalidade nossa que ainda não foi silenciada pelo chamado ''senso comum''.
O tempo, como sempre, é elemento importante nas suas histórias. Você acredita já ter aprendido a lidar com a passagem do tempo sem se sentir angustiado?
A minha aprendizagem é não ficar intimidado pelo tempo. Em Moçambique, prevalece ainda a ideia de um tempo circular, em contraponto com a de um tempo linear. Essa ideia ajuda a relativizar o sentido de um tempo único, ditado pelas urgências globais. Acho que a felicidade pode ser ajudada se pensarmos que existem tempos, no plural. E não um único compasso que dita o nosso modo de viver.
Você escreve sobre temas delicados, como a infelicidade alheia, guerra, fome, miséria, com uma linguagem poética nada simplista. Como consegue?
Não é uma questão de escrever, mas de viver. Em Moçambique vive-se assim, sem ficar sufocado pela realidade dura do cotidiano. Reconheço isso em toda a África que visitei: uma capacidade infinita de não sucumbir, de fazer como a vossa canção diz ''levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima''. Em Moçambique (e acredito que nas outras nações bantus), isso tem a ver com o fato de se pensar que o mau astral convoca os maus espíritos e perpetua a infelicidade. Não é exatamente um sentimento de resignação ou fatalidade. Resulta, sim, da convocação de um espírito positivo, uma atitude de enfrentar a vida sorrindo e fazendo festa. O Brasil herdou essa atitude do seu lado africano.
E como é, com uma obra tão delicada, dialogar com o mundo contemporâneo, marcado pelo consumismo e pelo hedonismo?
A fronteira entre a chamada contemporaneidade e o tempo local, interior, é uma invenção. Sempre houve trocas entre esses mundos. A nossa tradição é feita de modernidades, nosso feiticeiro já faz consulta por celular. Isso é digerido sem conflito aparente. Há uma percepção estática e conservadora sobre isso que erguemos como ''tradição''. Não é mais recente que o passado, feito de costuras e reconstruções a partir do presente.
De que trata seu novo livro?
Já terminei e será lançado no Brasil em novembro. É um romance que decorre num lugar remoto de Moçambique, inspirado no episódio real de um aldeia ter enfrentado um casal de leões que, por quatro meses, matou e devorou 25 pessoas. Eu estava nessa aldeia, uma parte desse tempo. Vivi essa experiência terrível e percebi que, por trás dessa grande história (quase de cinema de Hollywood), havia outras histórias. São essas outras narrativas que eu trabalhei em livro. Chama-se A Confissão da Leoa e será lançado em Moçambique e Portugal no fim do mês.
Serviço:
- Estórias Abensonhadas
Autor - Mia Couto
Editora - Companhia das Letras
Páginas - 160
Preço médio - R$ 35


