São Paulo - Biólogo por profissão, o moçambicano Mia Couto costuma dizer que a escrita é uma casa que visita. Portanto, não é escritor - está escritor. Essas visitas têm ocorrido com frequência há exatos 30 anos, quando estreou na literatura com um livro de poemas. Não insistiu no gênero, mas levou a linguagem poética para tudo o que escreveu desde então: "Terra Sonâmbula", "O Último Voo do Flamingo", "O Outro Pé da Sereia", entre outras duas dezenas de títulos.
Foram vários prêmios em sua carreira de escritor-biólogo, mas nenhum tão importante como o anunciado no final da tarde de anteontem. Aos 57 anos, ele venceu, por unanimidade, o Camões, o mais prestigioso da língua portuguesa e que foi instituído por Portugal e Brasil em 1989 para premiar autores que contribuem para a projeção da língua portuguesa. Mia ganhou 100 mil euros, como o brasileiro Dalton Trevisan ganhou no ano passado e o português Manuel António Pina no ano anterior. Era esperado que um africano vencesse agora e o nome de Mia, que lança agora "Cada Homem é Uma Raça" (Companhia das Letras), de contos, era o favorito.
À Agência Lusa, ele disse que esta segunda seria um dia normal, que iria apenas jantar e se desligar do mundo quando foi surpreendido pela notícia. Ficou feliz, claro.
"A escolha não foi difícil. Mia é um autor que ao longo destes anos soube inovar estilisticamente e influenciou escritores em Portugal e no Brasil. Ao mesmo tempo, ele tem uma grande atenção pelas pessoas que estão à margem e pela natureza", disse o angolano José Eduardo Agualusa, membro do júri que se reuniu no Rio de Janeiro na segunda. Ao lado dele, os brasileiros Alberto da Costa e Silva e Alcir Pécora e os portugueses João Paulo Borges Coelho, José Carlos Vasconcelos e Clara Crabbé Rocha.
"Sua obra ficcional é caracterizada por uma profunda humanidade e por uma grande inovação estilística. É um autor que está traduzido em cerca de 30 línguas, que tem uma ampla fortuna crítica e uma obra que ultrapassou há muito as fronteiras moçambicanas", justificou Clara Rocha, professora aposentada da Universidade Nova de Lisboa e filha de Miguel Torga, o primeiro vencedor do prêmio. (com colaboração de Heloisa Aruth Sturm)

OS VENCEDORES

2013 - Mia Couto (romancista moçambicano)
2012 - Dalton Trevisan (contista brasileiro)
2011 - Manuel António Pina (poeta português)
2010 - Ferreira Gullar (poeta brasileiro)
2009 - Armênio Vieira (escritor de Cabo Verde)
2008 - João Ubaldo Ribeiro (romancista brasileiro)
2007 - António Lobo Antunes (romancista português)
2006 - José Luandino Vieira (escritor angolano)
2005 - Lygia Fagundes Telles (romancista brasileira)
2004 - Agustina Bessa Luís (romancista portuguesa)
2003 - Rubem Fonseca (romancista brasileiro)
2002 - Maria Velho da Costa (romancista portuguesa)
2001 - Eugénio de Andrade (poeta português)
2000 - Autran Dourado (romancista brasileiro)
1999 - Sophia de Mello Breyner Andresen (poeta portuguesa)
1998 - Antonio Candido (crítico e ensaísta brasileiro)
1997 - Pepetela (romancista angolano)
1996 - Eduardo Lourenço (crítico e ensaísta português)
1995 - José Saramago (romancista português)
1994 - Jorge Amado (romancista brasileiro)
1993 - Rachel de Queiroz (romancista brasileira)
1992 - Vergílio Ferreira (romancista português)
1991 - José Craveirinha (poeta moçambicano)
1990 - João Cabral de Melo Neto (poeta brasileiro)
1989 - Miguel Torga (poeta e romancista português)

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