"Meu Tio" é crítica à sociedade industrial
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quarta-feira, 22 de setembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 23 (AE) - "Meu Tio" começa e termina aproximadamente da mesma maneira, com a câmera mostrando um bando simpático de vira-latas. Não se trata de acaso, mesmo porque há muito pouco acaso em jogo quando se trata da obra rigorosa de Jacques Tati. Seu personagem, monsieur Hulot, interpretado por ele mesmo, é um vira-latas da vida. Vive à margem. É um achado genial de autor, como o Carlitos, de Chaplin
ou os frágeis heterônimos de Woody Allen.
Não interessa muito saber se correspondem à realidade. Há quem diga que Allen é bem despachado - Mia Farrow poderia dizer três ou quatro palavras a respeito. Chaplin era um notório pão-duro, além de mulherengo. O que se sabe de Tati é que era um homem gentil.
Tão gentil que não podia ficar indiferente ao que via à sua volta, ou seja, a crescente desumanização das pessoas pelo contato fetichista com a tecnologia. Poderia ter feito críticas ácidas com esse tipo de constatação acaciana. Preferiu dirigir e interpretar comédias suaves, daquelas que não provocam exatamente gargalhadas, mas uma espécie de riso consciente. Você sabe que sai melhor depois de ver um filme como esse.
Na história, Hulot é o desajeitado de sempre. Vive numa espelunca, na mesma cidade em que sua irmã é casada com um empresário. O casal é fanático pela modernidade e a casa deles parece um museu de gadgets. Há um, emblemático, que fica na memória do espectador: o chafariz no jardim, o peixe metálico que expele pela boca um vistoso jato de água tingida de azul. Ele passa todo o tempo desligado. Os donos da casa o acionam quando há visitas. É só para os outros verem. Um ícone da frivolidade.
No mais, há o fogão automático, as portas que se abrem sozinhas, as cadeiras modernas que não foram feitas para nádegas humanas, etc. Hulot é um estranho no ninho nesse universo da artificialidade. Desambientado e desajeitado, vai provocando acidentes pelo percurso, até se tornar francamente indesejável. O único que o vê com olhos favoráveis é o filho do casal, o sobrinho.
Ternura - Assim, Tati compõe seu mundo e seus limites. De um lado, os adultos, com sua lógica social perversa, a ostentação vazia, a falta de sentido pomposa. De outro, algumas reservas de inocência. Hulot, as crianças, os bichos. De um lado o materialismo; de outro, a ternura, que, sem ser piegas, anda muito em falta neste mundo tolo e competitivo.
Portanto Tati, expressando-se por seu alter ego, Hulot, é um inadaptado. E daí? Há tantos por aí. A diferença é a maneira como faz a sua crítica da sociedade industrial. Com humor visual minimalista. Gestual gráfico, de silêncios quase becketianos, alcança o máximo de sentido quanto menos procura ser reiterativo, didático, explicativo. Analise uma sequência qualquer. Não há um gesto a mais, um objeto em excesso, uma linha sonora que sobrecarregue o desenho da cena. Tudo, no entanto, está lá, nessa crítica à coisificação do homem que coloca "Meu Tio" na linha direta de sucessão de "Tempos Modernos", de Chaplin.
Jacques Tati morreu em 1982. Não alcançou a Internet, a globalização, o neoliberalismo. O que faria nesse mundo de artistas integrados esse homem alto, desajeitado, chapéu na cabeça, capa amarrotada de gabardine - esse nosso genial contemporâneo, sem vocação para o seu tempo? Meu Tio. Comédia. Direção de Jacques Tati. Com Jacques Tati, Jean-Pierre Zola, Adrienne Servantie, Alain Bécourt. Duração: 110 minutos. Cineclube Vitrine. SP


