Romper com tudo o que é feito atualmente em termos de teledramaturgia parece ser a principal função de "Meu Pedacinho de Chão", novela das seis da Globo. E, mesmo que a trama não alcance números de audiência condizentes com sua qualidade, já é uma das melhores produções na história do gênero. Ao subverter padrões impostos às novelas, o folhetim surpreende pela história e pelo formato. Evidencia que a direção está a favor do texto e abusa de cenas longas, ao mesmo tempo em que exibe edição estilosa e diferente. A grande dúvida na época da estreia era se, justamente, a simplicidade do roteiro, amparado por histórias de amor e lutas políticas, ainda fosse funcionar passados mais de 40 anos da exibição original. Ajudada pela estética exagerada, que chega a soar original ao aglutinar tantas referências, a trama de Benedito Ruy Barbosa ganha outras possibilidades. Isso tudo sem que haja perda do real sentido de sua mensagem.
Outra ruptura artística que chama a atenção é a escalação de atores feitas pelo autor em parceria com o diretor Luiz Fernando Carvalho. Em tempos de "guerra" para formar um elenco de nomes conhecidos, é preciso ter coragem e influência dentro da Globo para tirar nomes como Juliana Paes e Rodrigo Lombardi do posto de mocinhos de futuras novelas das nove e transformá-los em figuras excêntricas como Catarina e Pedro. Galã repleto de tipos repetidos no currículo, como os personagens de "Caminho das Índias" e "Salve Jorge", Lombardi surge renovado e surpreende na grande maioria de suas cenas. O mesmo acontece com Juliana, que foge do estereótipo de "boazuda da novela" para viver uma mãe e esposa sensível, no tempo da delicadeza.

DESEMPENHOS
No meio de tantos desempenhos acima da média, personagens secundários ganham momentos de protagonistas. Em sua primeira novela, Irandhir Santos, intérprete do ambíguo Zelão, surpreende pela versatilidade na pele do pistoleiro rústico que alterna momentos de raiva e doçura. E é nas cenas com ele que Juliana, a solar protagonista de Bruna Linzmeyer, fica cada vez mais interessante. Já que o amor concentra as razões da trama, o tom cômico que impregna a história de Ferdinando e Gina, de Johnny Massaro e Paula Barbosa, é um dos pontos altos da novela. Muito por conta do "timing" e interação dos dois atores.
Faltando cerca de um mês e meio para o fim da novela, é fato que não há muito mais a fazer a respeito da audiência, que patina na média de 17 pontos. Mas a lembrança de seus intérpretes e do público que acompanhou a trama será boa e revigorante. E, dadas as devidas proporções, provavelmente, a estética desenvolvida pela equipe do diretor, quase um desfile de alta costura, certamente, irá influenciar futuras novelas.

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