Meu pé esquerdo de saias
Uma fábula desconfortável e corajosa sobre o amor
Pascal Guyot/France PresseHeather Rose é carregada pelo ator John Brumpton, acompanhada da também atriz Rena OwenDurante a primeira meia hora, ‘‘Dance Me to My Song’’ é perturbador em excesso, causa estranheza. Coloca o espectador diante de uma realidade que de imediato se tende a censurar pela crueldade da situações, pelo inusitado, pela não familiaridade com um pequeno universo de exceção. E pela aparente dubiedade de propósitos: ficção ou documento, drama sincero ou manifesto sensacionalista?
Há dois anos, o australiano de origem holandesa Rolf de Heer balançou os corações presentes ao Festival de Cannes com ‘‘The Quiet Room’’, a história de um garoto fechado mentalmente, cercado pelo muro do autismo. No filme, somente o amor materno consegue abrir uma fenda numa fortaleza trancada por mil inibições. De Heer está de volta, e de novo vem acompanhado por um caso de deficiência, agora ainda mais grave. Co-escrito e interpretado por Heather Rose, uma jovem que sofre de uma espécie mórbida de paralisia - totalmente dependente e prisioneira de uma cadeira de rodas - ‘‘Dance Me To My Song’’ é prova viva e palpitante, ainda que dolorosa para todos, das infinitas possibilidades de uma terapia basicamente construída com muito afeto.
Julia, o personagem com handicap, é o centro de tudo. Seus problemas são ainda mais patéticos quando se sabe que o cérebro está intacto e os sentimentos muito vivos. Ela não fala e nem pode cuidar de si mesma. Não come, não faz a higiene pessoal, não se veste, não vai para a cama sem a ajuda de uma outra pessoa. Fala (e escreve) através de um sintetizador eletrônico vocal e via computador. Mora sozinha. A monitora que cuida dela vem pela manhã e à tarde para comida, banho, asseio, cama. Apesar de tudo, Julia se sente bem. Apesar de todos os detalhes atrozes e muitas vezes chocantes dessa existência. Tudo é exposto por Rolf de Heer com um realismo que está sempre a um passo do suportável, mas que se sabe autêntico.
De modo geral, não se está nunca longe de um documentário ou de uma autobiografia. Julia e Heather Rose são afinal a mesma pessoa. Mas, a partir da metade da narrativa, a ficção se introduz para justificar a proposta do filme. Quem cuida de Julia não é propriamente um bom caráter. Sem nenhuma sensibilidade ou delicadeza, cumpre irregularmente as tarefas como obrigações desagradáveis. Quando num momento Rose se vê sozinha e precisando de ajuda, ela conhece um homem tranquilo que se mostra amável e capaz de compreender que está diante de um ser que deve ser amado em razão de qualidades não físicas. A partir daí, os dois se relacionam de maneira terna. Mas a enfermeira faz então a vilã completa, e tenta seduzir o visitante. O final é compreensivelmente exemplar, transmitindo um raro sentido de profundidade humana. Foram quase dez minutos de emocionante ovação para todo a equipe e elenco do filme, especialmente para Heather Rose, exultante à sua maneira.
(C.E.L.J.)

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