MEU OURO VERDE
Em 1999, fui ver sozinha o show do violeiro Paulo Freire no MPB Londrina. Mas não fiquei até o fim, precisava pegar o ônibus das 22h30 para voltar para casa. Saí do Ouro Verde inebriada com a riqueza da cultura popular brasileira, querendo mais shows, mais festivais como aquele, mais cultura para a cidade.
No caminho de volta, pequenos pontos reluziam no chão do Calçadão. Abaixei-me e vi que eram lantejoulas coloridas em formato de estrelas espalhadas por quase uma quadra inteira. ''Tu pisavas os astros distraída...'', cantarolei baixinho. Eu era feliz e sabia muito bem.
Alguns anos antes, também no Ouro Verde, um Concerto Matinal já havia sido crucial à minha juventude. Composta pelo professor Mário Loureiro e falando de um tal Tártaro Gomes, uma única música revolucionou em mim o conceito e a função da arte. E eu quis com todas as forças ser artista, para poder provocar em alguém aquilo que os músicos tinham feito comigo naquela manhã de domingo: encher de vontade de vida.
A quantos concertos da Osuel terei ido lá no Ouro Verde? Quantas peças memoráveis? E os shows? Em outro MPB Londrina, enquanto Luiz Tatit cantava, atrás do palco eu e Eduardo Carbone eternizávamos um momento de amizade tão bonito - sem nem perceber.
Quando me ligaram avisando que o Ouro Verde estava pegando fogo, corri para lá e vi muita gente consternada e muita fumaça. Basicamente é o que me lembro daquele 12 de fevereiro, e é só isso que precisa ficar registrado.
Já as histórias extraordinárias vividas lá dentro, essas precisam ser contadas e recontadas, repassadas para as novas gerações para que todos entendam o que significa ter um teatro. Não é o palco, não é o artista ou a apresentação que importa. É a transformação que acontece em nós enquanto estamos dentro daquela caixa de mágicas.
Este é meu apelo para que as pessoas participem do ''Meu Ouro Verde''. Envie seu relato para nós, vamos registrar a história que realmente importa. Porque esta coluna corre o risco de ser extinta ainda este mês unicamente por falta de colaborações.
Adriana Ito, editora da Folha2
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