Benditas
Quando soube do desaparecimento do Cine Teatro Ouro Verde, reduzido a cinzas, assim, sem mais nem menos, tive como que a visão de um portal se apagando, perda irremediável de um Ponto além do qual se abria um Livro do Imaginário, lugar de sonho onde cada um abandonava lá fora o seu invólucro tão frágil de carne para resplandecer, puro espírito.
Ponto de celebração, Magia correndo solta, a Arte exercida como Ofício Sagrado. Me veio à mente o evento Benditas, no ano de 2003, em homenagem às mulheres, ao Dia Internacional da Mulher, que reuniu um grupo de cantoras da cidade; cantoras e músicos incríveis, num espetáculo inesquecível, com direção musical, e de palco/luz/cenário.
Cine lotado, show impecável, público vibrante e um clima de total cumplicidade entre os artistas ali presentes. Momento raro, que merece um relato completo, nomes de quem criou, de quem fez, de quem aconteceu. E quem sabe um novo encontro em 2013 : Benditas. Eu me senti abençoada quando cantei Londrina, arranjo belo e melancólico de piano e sanfona: Mateus Gonçalves, Marco Scolari... Luzes se avermelhando, o silêncio respeitoso do povo desta cidade:
''Nuvens vermelhas no céu/ Na terra silêncio/ Uma ave voava/ E o rádio anunciava a Ave-Maria/ E dava uma saudade/ Uma tristeza estranha/ Uma vontade de chorar/ E a noite descia tranquila/ E a noite envolvia Londrina/ Olha quanta luz no céu/ Olha o avião voando sozinho/ Sobre o perobal/ E a sanfona tocava uma valsa triste/ E a cabocla de flor nos cabelos/ Cantava pra lua...''
Pois é, Arrigo Barnabé...Um outro Cine Teatro Ouro Verde não haverá. Houve uma queima de fluídos, de perfumes, como se agora faltasse o café forte nas manhãs...

Neuza Pinheiro é cantora e escritora

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