MEU OURO VERDE - O homem invisível
Em 1982 eu sonhava conquistar o mundo, mas, para isso, teria que primeiro conquistar Londrina e a única maneira de fazê-lo era apresentando-me no teatro Ouro Verde, de preferência com lotação total e tendo que sair de lá escoltado. A única forma de conseguir pisar o palco do Ouro Verde era o Festival de Teatro. Era quase uma loteria. Inscrevíamos a peça e aguardávamos sair a programação: ''Pô, peguei o Ouro Verde!'' - era a glória.
O Festival de Londrina permitiu a todo artista pisar o palco do Ouro Verde, inclusive o Reizinho, ator da pequena e pacata Cambé. A peça do Reizinho chamava-se O Homem Invisível, e despertou muita curiosidade no público que lotou o Ouro Verde. Todos queriam ''ver'' o homem invisível. Que truque Reizinho usaria pra mostrar o homem invisível?
Começa a peça que era na verdade um monólogo, a estória de um dono de circo e suas atrações. Uma chatice. Mas, quando alguém cogitava abandonar o Ouro Verde, Reizinho alertava: ''E logo mais teremos o Homem Invisível, não percam!'' Depois de uma hora e meia de enrolação e já temendo pela sua integridade física, Reizinho finalmente resolve apresentar: ''E para vocês que esperaram até agora, aí vem ele, o único, O Homem Invisível''. Silêncio absoluto. Queríamos ver o homem invisível. Então, olhando pros bastidores, Reizinho fez um movimento de cabeça, como se acompanhasse os passos do suposto homem invisível cruzando o palco: ''Palmas, para o homem invisível!'' Demorou alguns segundos até a plateia sacar que era pegadinha... Claro, se era invisível não daria pra ver. Ele nos pegou. Silêncio ameaçador.
Naquela noite Reizinho realizou dois sonhos meus em um só dia: pisou o desejado e lendário palco do Ouro Verde e saiu de lá escoltado.
Márcio Américo é escritor e dramaturgo





