MEU OURO VERDE - A seção das dez
Não lembro o ano mas foi na década de 70, quando foi exibido o filme ''Ben Hur'' no Cine Ouro Verde. Tratava-se de um longa metragem muito comentado e que lotou os cinemas na época e também não sabia que era um filme de três horas de duração. Pois bem, fui assistir sozinho apenas com o dinheiro do bilhete e as passagens de ônibus, nem sequer uma pipoca ou bala de hortelã (Ó vidinha!).
A seção era das 22 horas e cheguei mais cedo pois tinha que enfrentar fila para pegar o melhor lugar. Durante o filme, começou me dar calafrios saber que as horas passavam muito depressa e o filme ainda estava praticamente no meio e o último ônibus passava à meia-noite. Foram duas angústias: a que se passava no filme e a minha em ir embora a pé àquela hora da madrugada e além de tudo sozinho.
Por alguns minutos pensei em levantar da poltrona e sair disfarçadamente como se não estivesse gostando do filme, correr até o ponto de ônibus e acabar com aquela sensação ruim. Ao mesmo tempo não podia fazer aquilo, uma pelo espetáculo do filme, o outra pela vergonha de sair do cinema chamando atenção das pessoas que estavam concentradas e se emocionando com as cenas tristes que passavam na imensa tela.
Olhei para o relógio e já passava da meia-noite, então não havia mais o que fazer, seja o que Deus quiser. Assisti ao filme até o final, claro com a cabeça na caminhada que teria que fazer ao sair de lá, onde terminava o grande filme e começava a minha dura realidade de marchar a pé sozinho, até minha casa (no Interlagos) naquela escuridão, ruas de terra e mato para todo lado e muito medo. Tenho que confessar que foi sofrido, mas valeu a pena!
Nathanael da Silva, projetista
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