Meu encontro com Antonioni
Em 1994, convidado pelo cineasta Walter Hugo Khouri e pelo Festival de Gramado, Michelangelo Antonioni esteve durante todo um longo dia na Serra Gaúcha. Então recentemente vitimado por um grave AVC, preso a uma cadeira de rodas, mas anunciando a iminente estréia de seu filme recém-concluído, ''Além das Nuvens'', o cineasta recebeu enorme carinho da comunidade festivaleira.
Pela manhã ele participou da coletiva da qual tive o privilégio de ser um dos mediadores. E embora com a fala totalmente comprometida e sem conseguir dizer uma só palavra, Antonioni respondeu as muitas perguntas dos jornalistas através de sinais que iam sendo decodificados pela ''tradudora'' e também sua mulher Enrica Fico - que esteve a seu lado até o último momento de vida. Ela traduzia os sinais para o italiano, e Khouri se apressava em traduzir para o português.
O curioso é que os sinais de Antonioni eram tão econômicos quanto os textos dos personagens de seus filmes, célebres pelo eloquente silêncio. A tradução dos sinais era consequentemente também comedida, mas Khouri esticava até mais não poder, como tentando intuir elipses, decifrar símbolos, resolver enigmas e afinal desvendar, numa só conversa com a imprensa, a alma da filmografia de Antonioni. Um momento ''amarcord'', como diria Fellini. (C.E.L.J.)





